Encontro de formadores
Sigüenza, setembre 2016

SER IRMÃO HOJE NA AMÉRICA LATINA

“Todos vós sois irmãos” (Mt 23,8), pois o próprio Jesus, que assim afirmou, fez-se, ele mesmo, irmão da humanidade pela sua encarnação, vida, paixão morte e ressurreição (Hb 2, 12). A vida consagrada é chamada a ser uma vida discipular, apaixonada por Jesus caminho, verdade e vida (DA 220). Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, Senhor da vida e da história, tem que ser o ideal vivo e perene de todos os consagrados.O seguimento de Cristo mediante a vida consagrada supõe uma particular docilidade a ação do Espírito Santo, sem a qual a fidelidade a própria vocação ficaria vazia de conteúdo. (Carta apostólica – aos religiosos e religiosas da América Latina – com motivo do V centenário da evangelização do novo mundo – São João Paulo II – nº 16).
Acredito que aqui está o fundamento para ser irmão hoje na América Latina ou em qualquer outro espaço geográfico. Proposta significativa, sobretudo se consideramos que a qualificação de “irmãos” evoca um rica espiritualidade de acordo com o documento Vita Consecrata nº 60, nas palavras de São João Paulo II que destaca que somos “chamados a ser irmãos de Cristo, profundamente unidos a Ele, “primogênito de muitos irmãos” (Rm 8,29); irmãos entre si, no amor recíproco e na cooperação para o mesmo serviço de bem-fazer na Igreja; irmãos de todos os homens, no testemunho da caridade de Cristo para com todos, especialmente os mais pequeninos, os mais necessitados; irmãos para uma maior fraternidade na Igreja” (João Paulo II, Discurso na Audiência Geral (22 de Fevereiro de 1995), L’Osservatore Romano (ed. portuguesa: 25 de Fevereiro de 1995), 12. A identidade de ser e chamar-se de “irmãos”, não é pouco, pelo contrário, é algo grandioso, pois pertence ao núcleo do Evangelho. Viver a vida fraterna de irmãos implica desdobramentos em várias direções, a começar pela própria vida comunitária/fraterna, o primeiro sinal visível dessa fraternidade evangélica.
O continente latino americano é cheio de possibilidades, mas igualmente com muitas dificuldades. O ser irmão neste continente exige desinstalar-se e o desinstalar-se é um processo difícil. Há necessidade de conversão, para que depois de escutar o Senhor com admiração e crer nele se inicie de modo decisivo um caminho para ter em nós os mesmos sentimentos de Jesus Cristo. Existem possibilidades, podemos construir, mas muito precisa ser superado.
Um continente afetado pela cultura pós-moderna, cuja compreensão ainda é uma tarefa complexa, e que tem afetado diretamente a Vida Religiosa Consagrada (VRC), com seu secularismo, indiferentismo religioso, relativismo e individualismo exacerbado. Num continente onde se manifestam sérias tendências de secularização, também na vida consagrada, os religiosos são chamados a dar testemunho da absoluta primazia de Deus e de seu Reino (DA 219).
O desenvolvimento econômico de várias nações tem trazido em seu bojo uma diminuição da taxa de natalidade, a exemplo do que já acontecia nos países europeus. Agravando o problema da baixa taxa de natalidade em nações que, historicamente, alimentaram as fileiras da VRC, temos ainda a questão do abandono da prática religiosa pelas novas gerações. “Neste último triênio tem professado 5 Irmãos; falecido 5 e outros 8 tem saído da Congregação. Estas saídas têm provocado certa decepção”, (Carta do Superior Geral nº 18). …não poucas recaídas secularizantes na vida consagrada influenciada por uma antropologia meramente sociológica e não evangélica. (DA 100b).
Soma-se a isso um novo neoclericalismo que pode ser descrito segundo Libânio como “um hibridismo estranho de traços conservadores com requintes de pós-modernidade eletrônica, midiática. Por fora, são comportamentos e manifestações que recordam a disciplina anterior, com batinas, vestes solenes, hábitos exuberantes e celebrações que beiram ao barroco. Mas por dentro é a pós-modernidade festiva, facilmente superficial, mais inclinada ao fazer que ao dom, mais exterior que interior, mas estética que teológica, mais do altar iluminado que do atendimento silencioso das pessoas, mais do poder ativo e ostensivo que do serviço humilde, mais uma disciplina eclesiástica externa do que uma liberdade interior e coerente”. Alguns sinais dessa tendência: apresentação cada vez mais intensa de padres cantores como modelos de vocação; surgimento de grupos conservadores na Igreja; centralidade da Eucaristia como busca de bem estar. Sem dúvida este contexto dificulta a visibilidade e a incidência da vocação religiosa laical. Com os holofotes e a visibilidade voltados para os padres, o que restará de valor para as vocações para outros ministérios e formas de vida na Igreja?
Diminuição numérica dos irmãos. Segundo os dados do Annuarium Statisticum Ecclesiae 2011, “o número de irmãos leigos pareceu ter se estabilizado”. Mas isso se deve graças a um equilíbrio entre os continentes. O maior aumento percentual aconteceu no continente Asiático (+44,9%) e no continente Africano (+18,5%). Esses dois continentes juntos passaram a contar com 36% do total de irmãos leigos no mundo (representavam 28% em 2001). Inversamente, no período de 2001-2011 houve diminuição percentual dos irmãos leigos na Europa (-18%), América (-3,6%) e Oceania (-21,9%). Os irmãos vêem-se cada vez mais envolvidos por um ritmo de trabalho em suas obras educacionais e sociais, correndo o risco de perderem o sentido da mística em sua atuação. Irmãos muito ocupados, mas com o coração vazio de Deus, perdem a cor e o sabor de sua vocação. Coloca-se um imperativo: ou seremos homens de Deus no meio do mundo, ou não seremos nada. Nas palavras de Jesus: “Se o sal perde seu sabor, para que servirá? (Mt 5,13s).
Aqui surgem dois desafios um vocacional, outro as nossas obras. No campo vocacional é preciso sair do tradicional, convencional e buscar novas formas de divulgar e de chamar para o nosso estado de vida. É preciso criar uma cultura vocacional que valoriza todas as vocações. Permanece a necessidade de um esforço redobrado para apresentar uma animação vocacional adequada, juntamente com uma imagem coerente da vida religiosa laical. Perdemos por ventura a capacidade de atrair novas vocações? (VC 64).
Nas palavras do Superior Geral em sua carta nº 18, “Parece-me que seguem sendo bastante débeis os meios de animação vocacional nessa região. Os candidatos são muito reduzidos e isto afeta a aspectos essenciais da formação…. Parece necessário uma melhor planificação e uma prática constante da pastoral vocacional. Enquanto escasseia o número de Irmãos comprometidos com a pastoral vocacional ou nos dedicamos friamente a essa missão, seguirão sendo poucos os que respondam ao nosso chamado”.
Nas palavras do Documento de Aparecida nº 315 “Diante da escassez de pessoas que respondam à vocação ao sacerdócio e à vida consagrada na América Latina e no Caribe, é urgente dedicar cuidado especial à promoção vocacional, cultivando os ambientes onde nascem as vocações ao sacerdócio e à vida consagrada, com a certeza de que Jesus continua chamando discípulos e missionários para estar com Ele e para enviá-los a pregar o Reino de Deus. E ainda: Propor aos jovens o encontro com Jesus Cristo vivo e seu seguimento na Igreja, à luz do Plano de Deus, que lhes garanta a realização plena de sua dignidade de ser humano, que os estimule a formar sua personalidade e lhes proponha uma opção vocacional específica: o sacerdócio, a vida consagrada ou o matrimônio (DA 446c).
A Carta Apostólica de São João Paulo II nos lembra: É uma exigência inevitável de todos os Institutos o promover, com maior generosidade se possível que em outras épocas, uma pastoral vocacional e uma adequada formação dos candidatos a vida consagrada, que faça possível que a América Latina possa dispor, em número e em qualidade, de aqueles novos evangelizadores que necessita para seu futuro (nº 29a).
Na manutenção das obras. A diminuição dos irmãos tem suscitado dificuldades adicionais para a gestão das obras. “O número de Irmãos com o que conta este continente é de 61”, (Carta do Superior Geral nº 18). Como manter vivo o carisma do Instituto nessas obras, que contam com a presença física cada vez menor dos Irmãos? A presença dos irmãos nas obras não se resume ao simples exercício profissional, mas consiste fundamentalmente em “fermentar” seu ambiente de trabalho com a levadura do Evangelho e a Espiritualidade da Congregação, como fermentar essa realidade se o fermento se faz presente cada vez em menor quantidade, para uma mesma ou maior quantidade de massa? Aqui também é significativa a palavra do Irmão Superior Juan Andrés em sua carta nº 18 “A partir da especificidade de vocações é preciso consolidar e talvez idear novos caminhos e perspectivas de colaboração com os leigos. Estes poderão abrir novos espaços na gestão e animação das obras, e os Irmãos poderão e deverão ajudá-los a formarem-se espiritualmente, de maneira que vivam a riqueza do carisma. É um dom e um grande privilégio poder hoje partilhar a missão com tantos homens e melhores que se identificam com nossa espiritualidade e carisma”.
A mudança de época que estamos vivendo exige uma formação adequada. O documento Vita Consecrata afirma a necessidade de uma formação apropriada e integral para os irmãos leigos e aponta as dimensões: humana, espiritual, teológica, pastoral e profissional. Essa formação é fundamental e decorre do protagonismo que exercemos e da nova compreensão de nossa identidade carismática. Não temos dúvidas sobre a necessidade dessa formação. A formação humana, espiritual, pastoral, carismática está bastante clara e garantida em nossas comunidades formativas e pelo Guia de Formação, tanto a inicial como a permanente. A situação não é tão clara e restam improvisos quando se trata e organizar a nossa formação teológica e profissional. Organizar a formação teológica a nível institucional? Buscá-la fora? Como evitar o improviso e a falta de organicidade? Que formação profissional exigem os novos tempos para nós hoje? Não estamos mais atuando apenas em nossos países, mas em blocos, que formação teológica e profissional precisamos para isso?
A formação na América Latina tem que ter presente algumas chamadas muito significativas hoje, como a chamada da Terra (ecologia), a chamada da geração digital, a chamada dos pobres, empobrecidos e campesinos, em grande número em nosso Continente e as chamadas que a Igreja Latino Americana faz constantemente através de seus documentos. Chamadas estas que devem desafiar a nossa formação. Não podemos nos contentar apenas com a formação acadêmica e teológica.
Ser irmão na América Latina hoje é sair do “porto seguro” da Vida Religiosa Consagrada, como Instituição e lançar-se num tempo de provação, de incertezas rumo a uma esperança Pascal. Já faz algum tempo que constamos uma busca de sentido, uma revisão da própria caminhada religiosa e um voltar às fontes e uma refundação da Vida Religiosa na América. Também testemunhamos um desânimo, uma descrença e uma falta de esperança por parte de certo número de religiosos. Além disso, alguns dissidentes que insistem em afirmar que “esta figura histórica de Vida Consagrada está esgotada”. Mesmo com esta realidade, não se pode desconsiderar a presença de pessoas cheias de motivações, generosas e honestas para não apenas continuar na Vida Consagrada, mas também ser uma presença marcante na Igreja e na atual sociedade, talvez “minorias abraâmicas”, mas existem.
É fato que a Vida Consagrada perdeu parte da influência que exercia. No mundo contemporâneo, na América Latina, ela já não tem a força que tinha na evangelização da sociedade (pos)moderna e perdeu significado para o povo e a sociedade em geral. Por que como indicam, algumas questões, a Vida Consagrada não está sendo o fermento, o sal e a luz que deveria ser na atual civilização (pós)moderna, plural, democrática e secular? Faltaria um testemunho de vida pessoal e comunitário mais convincente?
Pesquisas apontam que um traço característico e que vem a tona nos depoimentos sobre os irmãos/irmãs e a Vida Religiosa Consagrada e o aspecto de que uma pessoa (irmão/irmã) marcou a existência da vida deles. Sim, este talvez seja o sinal luminoso mais evidente da VRC que impacta na evangelização. Nossa maneira de ser e de viver. Nós também em nível de América Latina temos um grupo significativo de irmãos, homens extraordinários e simples que chamaram e chamam atenção. Não são celebridades da mídia e na sua vida cotidiana testemunham bondade, misericórdia, generosidade, amor a Deus, serenidade, solidariedade e profecia. Valores evangélicos. Creio que a VRC da América precisa de irmãos que sejam capazes de internalizar os valores evangélicos/nazarenos e os traduzam em gestos, posturas e atitudes na radicalidade do seguimento de Jesus. Num mundo que perdeu os referenciais, cada vez mais, os cristãos necessitam modelos ou referência de vida que sejam possíveis e visíveis.
Opção preferencial pelos pobres. “Na sociedade contemporânea, multiplica-se a riqueza e pobreza. A Vida Consagrada foi chamada a responder a este desafio. Na América Latina, a partir de Medellín-Puebla a opção preferencial pelos pobres ganhou rosto singular. Compreendeu-se que a pobreza não é somente um fenômeno individual, mas, sobretudo coletivo. Estruturas políticas, econômicas e sociais legitimam e ampliam a exclusão social. Então, a ação dos religiosos mudou substancialmente. A partir da metodologia libertadora, consideram-se os pobres como seres humanos chamados a serem protagonistas de sua história, como pessoas, cidadãos e membros da comunidade cristã”. Diz-nos Afonso Murad religioso Marista numa de suas reflexões. Penso que nossas comunidades religiosas americanas também devem ter presente esta opção e buscar experiências de inserção ou outras formas similares de missão onde se valorizam a convivência e discipulado: estar com os pobres numa relação fraterna de aprender e ensinar.
A opção pelos pobres se coloca no horizonte de crítica à sociedade existente e de empenho na construção de um novo projeto de humanidade. Por isso, investe-se na conscientização e na organização popular. É preciso preparar lideranças populares para assumirem o protagonismo na Igreja e na sociedade. Estar com os pobres, contra a pobreza. Combater o assistencialismo paternalista, que considera os pobres como “coitadinhos” e incapazes. Contribuir na formação e no acompanhamento de lideranças, que atuam em processos de transformação social.
Uma espiritualidade bíblica e encarnada. Os consagrados são caracterizados como “homens e mulheres de Deus”. A VRC nasce e se desenvolve como forma original de seguir a Jesus. Hoje, percebe-se com clareza que ela não é um “estado de perfeição” e sim um “estado de peregrinação”. A partir de uma antropologia unificadora, que compreende o ser humano com unidade plural de corpo e espírito, busca-se superar o espiritualismo pessimista e escapista. O cultivo da Espiritualidade ganha novo sabor. Vai além dos “Exercícios de piedade” e das devoções. Centra-se na leitura da Palavra de Deus em relação com a existência humana. Amplia-se com a oração espontânea, o louvor, os cânticos, a revisão do dia, a partilha das experiências, a celebração comunitária da eucaristia. Ora, tal mudança de perspectiva na espiritualidade da Vida Religiosa apostólica impacta diretamente na forma como ela evangeliza. Em vez de pregar que os cristãos devem se isolar do mundo, os convoca a transformar o mundo.
Evangelizar a partir de uma profunda experiência de Deus, buscando comunitariamente a luz e o discernimento para afrontar os problemas da vida cotidiana, será garantia de una eficaz e transparente pregação do Evangelho aos homens e mulheres de nosso tempo; será autêntico anúncio e testemunho da Palavra de vida, acolhida com fé e experimentada na comunhão eclesial (cf. l Jn 1, 1-3), (Carta Apostólica nº 25).
Quem experimenta a leitura diária da Palavra de Deus tem o desejo de partilhar esta vivência com outros. O ensinamento não está centrado na doutrina, compreendida de maneira fixista, mas no seguimento a uma pessoa, Jesus. No nosso continente, a CLAR e as Conferências nacionais de religiosos oferecem amplo material didático para estimular o exercício da leitura orante da Bíblia. Muitas comunidades nossas adotaram esta prática que é preciso manter e a assimilaram como método prioritário para rezar. Mais ainda. Muitos irmãos estão envolvidos, nas Igrejas particulares, na pastoral bíblica, na promoção de grupos de reflexão e partilha em torno da Sagrada Escrituras, na catequese e formação de catequistas, na formação e acompanhamento espiritual de lideranças eclesiais a partir da Bíblia. Trata-se de uma contribuição inestimável para a (nova) Evangelização!
A respeito da espiritualidade, algumas interrogações: Como cultivar uma espiritualidade num tempo de tantos ídolos ou poderes idolátricos (tecnológicos, econômicos, científicos)? Como resgatar a experiência mística numa sociedade que cultiva o hiperconsumismo, a vida não ascética, a autossatisfação, o bem-estar? Há quem afirma que ou a Vida Religiosa se ancora numa verdadeira, profunda e esperançosa experiência de Deus ou continuará vivendo numa anemia espiritual séria que esvazia seu testemunho na atual civilização.
Diz-nos o Documento de Aparecida, em seu número 224 – “Os povos latino-americanos e caribenhos esperam muito da vida consagrada. Seu desejo de escuta, acolhida e serviço, e seu testemunho dos valores alternativos do Reino, mostram que uma nova sociedade latino-americana e caribenha, fundada em Cristo, é possível”. Embora ainda minoritário, torna-se cada vez mais significativo o número de pessoas que procuram nos irmãos referências de vida no âmbito da mística, da espiritualidade, da contemplação, da harmonia interior. Não querem mestres nem doutores, mas companheiros no caminho espiritual. O que podemos lhes oferecer, em âmbito pessoal e comunitário?
A Igreja espera, segundo as palavras de São João Paulo II, na carta apostólica – aos religiosos e religiosas da América Latina nº 24, um impulso constante e decidido na obra da nova evangelização, já que estão chamados, cada um segundo seu carisma, a «difundir por todo o mundo a boa nova de Cristo». A urgência da nova evangelização na América Latina, que vivifique suas raízes católicas, sua religiosidade popular, suas tradições culturais, exige que os religiosos, hoje como ontem — e em estreita comunhão com seus Pastores — sigam estando na vanguarda mesma da pregação dando sempre testemunho do Evangelho da salvação.
Espera também a colaboração na evangelização da cultura. Que os religiosos possam contribuir, pois, para forjar uma cultura que esteja sempre aberta aos valores da vida, da originalidade da mensagem evangélica, a solidariedade entre as pessoas; uma cultura da paz e de unidade que Cristo pediu ao Pai para todos os que crêem nele. …Tenho plena confiança que, com vossa generosa contribuição se seguirá levando a frente a desejada transformação cultural e social deste continente, (Carta apostólica, nº 28).
E espera ainda uma evangelização sem fronteiras. Chegou a hora em que vocês, homens e mulheres consagrados da América Latina, se façam cada vez mais presentes em outras Igrejas do mundo, com um dinamismo sem fronteiras, e que ofereçam generosamente, inclusive “desde a vossa pobreza”, ajuda a missão evangelizadora da Igreja em outras Nações que também estão necessitadas de um primeira ou de uma nova evangelização, (Carta apostólica nº 29). Nas palavras do Documento de Aparecida ser discípulos missionários.
Um caminho inovador, profético e esperançoso para os(as) religiosos(as) é apresentado hoje pelo Papa Francisco, e creio ser um caminho válido para nos irmãos que vivemos e trabalhamos na América Latina. A perspectiva apresentada pelo Papa é de uma vida religiosa pobre e dos pobres, profética, alegre, que vive a diaconia samaritana e o compromisso ético e ecológico… Ademais, a vida religiosa não se pode instalar no mundo do poder, do prestígio e do aburguesamento. Como também deve ser mística, inti-idolátrica e antifundamentalista, e ser experiência da inculturação, do diálogo e do encontro com o outro. Esse modelo de Vida Religiosa Consagrada é um desafio e uma esperança, um modo fundamental para se viver o Evangelho e um jeito testemunhal que aponta para os sinais dos tempos.
E assim nos questionamos: Como caminhar decididamente para este novo rumo que nos exige o mundo de hoje, a Vida Religiosa de hoje? Por que Vida Religiosa Consagrada, os irmãos, não nos sentimos provocados a assumir e viver uma vocação para experiências novas em termos de alteridade ou novo modelo de vida?
O ponto de partida da identidade profunda dos consagrados está no ser e não no fazer, vale dizer, o importante é sermos pessoas que testemunham valores alternativos, valores evangélicos. Que a nós religiosos, nos reconheçam e nos distingam não pelo tipo de casa em que vivemos, e menos ainda pelos hábitos ou coisas parecidas. Teriam que nos reconhecer porque somos pessoas profundamente humanas. E, além disso, porque somos tão sensíveis a tudo o que afeta a humanidade, que as pessoas ao ver-nos não terão alternativa senão dizer: “aqui há algo que humanamente não tem explicação”. Então a Vida Religiosa fará do deserto da humanidade, que é a sociedade atual, a verdadeira cidade dos seres humanos, verdadeira cidade de irmãos.
Já temos um caminho traçado pelo nosso Venerável Fundador Irmão Gabriel Taborin, o mesmo espírito, a mesma generosidade, a mesma abnegação devem mover-nos a nós, seus filhos espirituais, a manter vivo seu carisma, com a mesma força que o Espírito o suscitou e devemos seguir enriquecendo-o, adaptando-o sem perder seu caráter genuíno, para coloca-nos a serviço da Igreja e levar a plenitude a implantação do Reino.

Ir. Valcir Francisco Rizzardo
Agosto de 2016.