Roma 12 – 03 – 2020

Estimados Irmãos, membros das Fraternidades Nazarenas, Aspirantes a Irmãos, Comunidades Educativas, Comunidades cristãs, Catequistas e amigos da Família Sa-Fa:

Recebei minha afetuosa saudação neste tempo de Páscoa que nos dá a alegre notícia de Cristo ressuscitado. A ressurreição de Jesus encheu de alegria e de paz os discípulos. A tristeza e o temor deu passagem neles à confiança e à fé em Jesus Messias. Esta notícia chega também a nós hoje e nos convida a seguir crendo em Jesus, vivo e presente, que nos traz a nova vida do Reino que é «justiça, paz e alegria» (Rm 14, 17).

Quando contemplamos a paixão e morte de Jesus na cruz, entendemos de um modo natural a dor e o drama vivido, já que nossa experiência de sofrimento e de morte nos ajudam na sua compreensão. Contudo, quando contemplamos a ressurreição de Jesus, nos faltam elementos para entender seu alcance porque é algo novo. Por isso, quero convidar-vos a aproximar-nos ao mistério da ressurreição, olhando a Cristo como a luz e a esperança que traz ao mundo a vida plena, a fraternidade e a paz.

O reencontro com a vida plena

A paixão e a morte de Jesus aconteceram num cenário público e com uma multidão que gritava. A ressurreição de Jesus, pelo contrário, aconteceu privadamente e no silêncio. Em muitas pinturas artísticas alusivas à ressurreição de Cristo, os soldados que guardavam o sepulcro aparecem dormidos, sem darem-se conta do que sucedia. Podemos ver nestes soldados a atitude de tantos homens de nossa época que não percebem a presença do ressuscitado. Talvez nós tenhamos uma parte de soldados que dormem e não chegamos a perceber a luz que estala dentro dos sepulcros de nosso mundo.

A pedra de entrada ao sepulcro apareceu removida e ninguém o explicava. A Páscoa, dizia numa ocasião o Papa Francisco, é a festa da remoção das pedras. Deus retira as pedras mais duras, contra as quais se rompem as esperanças e as expectativas: a morte, o pecado, o medo, a mundanidade. A história humana não termina ante uma pedra sepulcral, porque hoje se descobre a «pedra viva» (cf. 1 P 2,4): Jesus ressuscitado”.

A nova presença de Jesus ressuscitado se fez visível em encontros pessoais e grupais. A comunidade dos discípulos foi testemunha de algumas aparições de Jesus que se sucederam no tempo. Os discípulos viveram um processo vital que foi do temor e da desesperança ao reconhecimento da ressurreição e sua confissão de fé em Jesus como Senhor ressuscitado. Assim, Maria Madalena exclamou: Mestre! (Jo 20, 16); Pedro gritou: “é o Senhor” (Jo 21, 7); os discípulos contaram “Vimos o Senhor!” (Jo 20, 24) e Tomé exclamou: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20, 28).

O tempo de Páscoa deve ser para nós uma oportunidade de crescimento nesta fé em Jesus que dá sentido, fortalece, ilumina, marca o caminho e nos dá vida em plenitude como aos discípulos da primeira hora. Que possamos fazer nossa essas palavras dos discípulos: Vimos o Senhor! Não caiamos na tentação de ir na vida sozinhos e acolhamos a presença de Jesus em cada um de nós que nos plenifica.

Cristo irmão

Quando pensamos na ressurreição de Jesus tratamos de divinizá-la e situá-la no mundo do sobrenatural que pouco toca a nossa vida. Contudo, os Evangelhos não apresentam a Jesus com auréolas resplandecentes, mas com traços bem humanos, ao ponto que se faz difícil reconhecê-lo. Assim, vemos que Jesus, em suas aparições, tem o aspecto de jardineiro ante Madalena, de viajante ante os de Emaús ou de pescador ante os discípulos. Jesus sai ao encontro de cada um e em diálogo com eles se faz reconhecer.

Quando Jesus fala com as mulheres que visitavam o sepulcro, lhes encarrega de avisar aos discípulos, seus irmãos: “Ide e anunciai a meus irmãos que vão à Galiléia; ali me verão!’ (Mt 28, 9-10).  A palavra irmãos”, que aparece em várias ocasiões nos Evangelhos, tem sua máxima expressão na frase “Não vos deixeis chamar “rabi”, porque um só é vosso mestre e todos vós sois irmãos (Mt 23, 8). Depois da ressurreição, este ensinamento adquire toda sua força e vemos que os primeiros cristãos se chamavam entre si “irmãos”. Jesus instaurou uma nova fraternidade em torno a Ele, “primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8, 29).

Os Irmãos “celebram especialmente a vitória pascal de Cristo, origem de nossa fraternidade” (C 135). A fraternidade é um dos sinais pascais que estamos chamados a viver em nosso dia a dia, isto é, a mostrar em cada momento o rosto de Cristo irmão. Jesus também indicou claramente que qualquer coisa que façamos aos demais é como se a Ele o estivéssemos fazendo: O que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt. 25, 40).

Colocar-nos na dinâmica da ressurreição é situar nossa vida nesta chave de fraternidade em nossa relação com os demais. Sentir-se “irmão” é uma graça e uma exigência que nos leva a adotar um estilo de vida fraterno: relacionar-nos com os demais de igual para igual, fazer-nos cargo das necessidades dos outros, identificar-nos com os mais fracos, preocupar-nos pela justiça e pela paz; enfim, querer crescer juntos.

 A paz esteja convosco!

Podemos pensar que quando Jesus se encontrou de novo com os discípulos, depois da ressurreição, tinha muitas coisas especiais que dizer-lhes e, contudo, lhes dirigiu a saudação cotidiana: A paz esteja convosco! (Jo 20, 19). Apesar da simplicidade, esta saudação encerra a essência da mensagem da Páscoa. São Paulo nos recorda, Jesus Cristo «é nossa paz» (Ef 2,14).

Os discípulos tinham ainda muito medo no amanhecer daquele Domingo de Páscoa. Quando arrastaram Jesus eles se tinham dispersado e passaram à clandestinidade, temerosos de que as autoridades os arrastassem a eles também. Haviam presenciado a crucifixão de Jesus e tinham experimentado o próprio temor, insegurança e falta de fé. Haviam falhado ao Senhor. Mas quando Jesus se lhes apareceu, não lhes reprovou sua atitude, ao contrário, lhes desejou a paz: A paz esteja convosco!  Uma paz que soou a reconciliação e esperança. Ele não veio ao mundo para condenar-nos, mas para salvar-nos e para que tenhamos vida em plenitude.

Hoje esta frase A paz esteja convosco! é dita a nós. A paz que vem de Jesus não é a mesma que encontramos no mundo. A paz do mundo depende de que as circunstâncias sejam favoráveis ou de que não tenhamos problemas. Sempre será uma paz instável e frágil. A paz que Jesus nos oferece transmite confiança, guia nossos passos e ajuda a encarar os problemas com inteireza, mesmo que não desapareça a insegurança ou a frustração.

O dom da paz que Jesus concede está chamado a ser compartilhado. Depois de dizer aos discípulos a paz esteja convosco” acrescentou: “Como o Pai me enviou, assim eu vos envio também” (Jo 20, 21). Jesus nos envia ao mundo e nos pede que tratemos ao próximo com a mesma compaixão e o mesmo amor com que Ele nos tem tratado. É o amor que é capaz de derrubar os muros do ódio, da falta de perdão e dos preconceitos; é um amor que infunde valor e força para trabalhar pela paz.

Quero fazer uma recordação para com as famílias e os povos que se veem privados da paz. Em especial quero mencionar a aqueles aos quais a violência de outros os leva a grandes sofrimentos e penas, como sucede em algumas regiões de Burkina Faso e em tantas outras partes do mundo. Para isso quero pedir esta paz de Jesus e recordar a frase: “Ditosos os que trabalham pela paz, porque Deus os chamará filhos seus” (Mt 5, 9).

Na última Ceia, como presente de despedida, Jesus disse a seus discípulos: A paz vos deixo, minha paz vos dou” (Jo 14, 27) e com sua Ressurreição se cumpriu a promessa e nos oferece sua paz. Feliz Páscoa de Ressurreição!

 

Ir. Francisco Javier Hernando de Frutos

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