Referências:

Ir. Esteban Baffert : O Espírito do Instituto. Conferências para o retiro de 1934
Ir. Teodoro Berzal : Voltar a Nazaré, apontamentos de meditação, ciclos litúrgicos A, B e C

Uma expressão dos Atos dos Apóstolos orienta este método de leitura da Palavra de Deus: “o que Jesus viveu e ensinou” (Atos 1,1), recolhida pelas Constituições: “Os Irmãos aprender a meditar e a viver o Evangelho à luza do mistério de Nazaré, onde Jesus começou a cumprir o que mais tarde haverá de ensinar” (Constituições, 7). Por outra parte há que ter sempre em conta o grande princípio enunciado pelos Padres da Igreja segundo o qual Cristo inteiro está presente em cada um de seus mistérios.

Uma passagem da segunda conferência preparada pelo Ir. Esteban Baffert para o retiro de 1934 nos dá a chave para uma leitura do mistério de Nazaré à luz do Evangelho e por extensão de toda a Palavra de Deus. Eis aqui o texto.

A vida de família em Nazaré, evangelho do Irmão da Sagrada Família”.

Mas, perguntará alguém, como podemos meditar a vida oculta de Jesus de Nazaré e sua vida de família se não temos detalhes sobre ela, se os evangelhos são tão sucintos ou quase mudos neste ponto. A resposta é esta: os trinta anos da vida oculta de Jesus podem ser meditados servindo-se do evangelho inteiro. Para estudar, compreender, e experimentar os tinta anos da vida oculta basta projetar sobre eles a luza de cada uma das verdades expressas na mensagem dos evangelhos. As verdades do evangelho escrito são como outros tantos refletores que iluminam os obscuros anos do evangelho vivido.

Ponhamos um exemplo. Jesus diz no evangelho: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Apliquemos essas palavras à infância do Salvador, a sua obediência, a seu silêncio, a seu trabalho escondido e penoso, a suas relações de submissão, respeito e ternura para com Maria e José. Podemos contemplar para isso um quadro da Sagrada Família que represente a Jesus cumprindo com seus deveres de respeito, afeto e obediência para com Maria e José. Ouçamos, enquanto nossos olhos estão fixos na imagem, a Jesus que nos disse: “Olha, filho, como me comportei com meu pai e minha mãe, olha como os amo, os respeito e obedeço. Faço isto para mostrar-te o caminho e já sabes que meu exemplo é o único caminho de salvação. Todo homem e todo religioso que quer colocar-te em oposição a teu Superior está fora do caminho e da verdade e, se o segues, como ele cairás no precipício. Meu exemplo de amor e de obediência dá a vida aos que me seguem. Aqueles que desejam obrar de outro modo encontram a morte”.

Basta um pouco de reflexão para compreender que este método pode ser fecundo e que nos descobrirá muitas maravilhas num campo que a primeira vista poderia parecer deserto.

O resultado da projeção da luz do evangelho sobre a vida oculta do Salvador é algo que pode surpreender em princípio, mas que a reflexão pode ajudar a compreender. O Jesus da vida de família e da oficina de Nazaré é o mesmo que pregava em Cafarnaum e nas margens do lago de Tiberíades. Agora bem, Jesus não pode pregar uma doutrina diferente do que havia vivido em Nazaré. Há uma identidade entre seu comportamento e sua doutrina. Sua doutrina deveu ser a melhor explicação de sua vida, e de modo particular dessa parte mais escondida de sua vida, a que viveu em Nazaré que o Espírito Santo parece haver querido deixar que decifrem as pessoas destinadas estudá-la e conhecê-la como o são os Irmãos da Sagrada Família.

Meditemos, pois, a vida oculta de Nazaré à luz do evangelho; aprendamos nela, como santa Teresa do Menino Jesus, o espírito de família no estilo de vida de família mais santa que tenha existido”.

Estas reflexões do Ir. Esteban Baffert assinalam um caminho, um método de leitura e meditação: “os trinta anos da vida oculta de Jesus podem ser meditados servindo-se do evangelho inteiro”. Poderíamos dizer que esse caminho pode recorrer-se também no sentido inverso, ou seja, desde o mistério de Nazaré para as diversas passagens da Palavra de Deus no Antigo e Novo Testamento. É o itinerário proposto nas anotações de meditação “Voltar a Nazaré”, que compreende estes passos :

– a leitura do texto,
– a síntese da mensagem centro do que foi lido,
– a meditação e interpretação da mensagem à luz do mistério de Nazaré,
– a reflexão sobre nossa vida, que fica aberta ao discernimento, à oração e à contemplação.