AUDIÊNCIA GERAL

Praça de São Pedro

Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014

A Família – 1. Nazaré

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Sínodo dos Bispos sobre a Família, recém-celebrado, foi a primeira etapa de um caminho, que terminará em Outubro próximo com a celebração de mais uma Assembleia sobre o tema «Vocação e missão da família na Igreja e no mundo». A oração e a reflexão que devem acompanhar este caminho comprometem todo o Povo de Deus. Gostaria que também as habituais meditações das audiências de quarta-feira se inserissem neste caminho comum. Por isso, decidi ponderar convosco, durante este ano, precisamente sobre a família, sobre este dom grandioso que o Senhor ofereceu ao mundo desde os primórdios, quando conferiu a Adão e Eva a missão de se multiplicar e encher a terra (cf. Gn 1, 28). Um dom que Jesus confirmou e selou no seu Evangelho.

A proximidade do Natal acende uma luz forte sobre este mistério. A encarnação do Filho de Deus abre um novo início na história universal do homem e da mulher. E este novo início tem lugar no seio de uma família, em Nazaré. Jesus nasceu numa família. Ele podia ter vindo de modo espectacular, ou como um guerreiro, um imperador… Mas não: veio como filho, numa família. Isto é importante: ver no presépio esta cena tão bonita!

Deus quis nascer numa família humana, que Ele mesmo formou. Forjou-a num longínquo povoado da periferia do Império romano. Não em Roma, que era a capital do Império, não numa cidade grande, mas numa periferia quase invisível, aliás, bastante famigerada. Recordam-no também os Evangelhos, praticamente como um modo de dizer: «Pode porventura vir algo de bom de Nazaré?» (Jo 1, 46). Talvez, em muitas regiões do mundo, nós mesmos ainda falemos assim, quando ouvimos o nome de um lugar periférico de uma cidade grande. Pois bem, precisamente aí, na periferia do grande Império, começou a história mais santa e boa, a de Jesus entre os homens! E essa família vivia ali.

Jesus permaneceu naquela periferia durante trinta anos. O evangelista Lucas assim resume este período: Jesus «vivia submetido a eles» [ou seja, a Maria e José]. E poder-se-ia dizer: «Mas este Deus que vem para nos salvar perdeu trinta anos ali, naquela periferia de má fama?». Perdeu trinta anos! Ele quis que fosse assim. O caminho de Jesus era no seio daquela família. «A Mãe conservava tudo isto no seu coração, e Jesus crescia em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens» (2, 51-52). Não se fala de milagres ou curas, de pregações — não fez alguma nessa época — de multidões que acorrem; Em Nazaré tudo parece acontecer «normalmente», segundo os costumes de uma família israelita piedosa e diligente: trabalhava-se, a mãe cozinhava, ocupava-se dos afazeres de casa, passava a ferro… coisas de mãe. O pai, carpinteiro, labutava, ensinava o filho a trabalhar. Trinta anos. «Mas que desperdício, Padre!». Os caminhos de Deus são misteriosos. Mas ali o importante era a família! E isto não constituía um desperdício! Eram grandes santos: Maria, a mulher mais santa, Imaculada, e José, o homem mais justo… A família.

Sem dúvida, enternece-nos a narração do modo como Jesus, adolescente, enfrentava os encontros da comunidade religiosa e os deveres da vida social; saber como, jovem operário, trabalhava com José; e depois, o seu modo de participar na escuta das Escrituras, na oração dos Salmos e em muitos outros hábitos da vida diária. Na sua sobriedade, os Evangelhos nada falam sobre a adolescência de Jesus, deixando esta tarefa à nossa meditação afectuosa. A arte, a literatura e a música percorreram este caminho da imaginação. Sem dúvida, não é difícil imaginar o que as mães poderiam aprender do esmero de Maria pelo seu Filho! E quanto os pais poderiam aprender do exemplo de José, homem justo, que dedicou a sua vida para apoiar e defender o Menino e a Esposa — a sua família — nas horas difíceis! Sem mencionar quanto os jovens poderiam ser encorajados por Jesus adolescente a entender a necessidade e a beleza de cultivar a sua vocação mais profunda, e de fazer sonhos grandiosos! E nestes trinta anos Jesus cultivou a sua vocação, para a qual o Pai o enviara. E nessa época Jesus nunca desanimou, mas cresceu em coragem, para ir em frente com a sua missão.

Cada família cristã — como Maria e José — pode primeiro acolher Jesus, ouvi-lo, falar com Ele, conservá-lo, protegê-lo e crescer com Ele, e assim melhorar o mundo. Deixemos espaço ao Senhor no nosso coração e nos nossos dias. Assim fizeram também Maria e José, mas não foi fácil: quantas dificuldades tiveram que superar! Não era uma família fictícia, nem uma família irreal. A família de Nazaré compromete-nos a redescobrir a vocação e missão da família, de cada família. E, come aconteceu naqueles trinta anos em Nazaré, assim também pode ocorrer para nós: fazer com que o amor se torne normal, e não o ódio, fazer com que se a entreajuda se torne comum, não a indiferença ou a inimizade. Então, não é por acaso que «Nazaret» significa «Aquela que conserva», como Maria, que — diz o Evangelho — «conservava tudo isto no seu coração» (cf. Lc 2, 19.51). A partir de então, quando uma família preserva este mistério, até na periferia do mundo, entra em acção o mistério do Filho de Deus, o mistério de Jesus que vem salvar-nos. E vem para salvar o mundo. Esta é a grande missão da família: deixar lugar a Jesus que vem, acolher Jesus na família, na pessoa dos filhos, do marido, da esposa, dos avós… Jesus está aí. É preciso acolhê-lo ali, para que cresça espiritualmente naquela família. Que o Senhor nos conceda tal graça nestes últimos dias antes do Natal. Obrigado!

 

AUDIÊNCIA GERAL

Sala Paulo VI

Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2015

A Família – 2. A mãe.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje continuamos com as catequeses sobre a Igreja e faremos uma reflexão sobre a Igreja mãe. A Igreja é mãe. A nossa Santa mãe Igreja.

Nestes dias a liturgia da Igreja colocou diante dos nossos olhos o ícone da Virgem Maria Mãe de Deus. O primeiro dia do ano é a festa da Mãe de Deus, à qual se segue a Epifania, com a recordação da visita dos Magos. Escreve o evangelista Mateus: «Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, adoraram-no» (Mt 2, 11). É a Mãe que, depois de o ter gerado, apresenta o Filho ao mundo. Ela dá-nos Jesus, ela mostra-nos Jesus, ela faz-nos ver Jesus.

Continuamos com as catequeses sobre a família e na família há a mãe. Cada pessoa humana deve a vida a uma mãe, e quase sempre lhe deve muito da própria existência sucessiva, da formação humana e espiritual. Contudo, a mãe, embora seja muito exaltada sob o ponto de vista simbólico — muitas poesias, muitas coisas bonitas se dizem poeticamente sobre a mãe — é pouco escutada e pouco ajudada no dia-a-dia, pouco considerada no seu papel central na sociedade. Aliás, muitas vezes aproveita-se da disponibilidade das mães a sacrificar-se pelos filhos para «economizar» nas despesas sociais.

Acontece também que na comunidade cristã a mãe nem sempre é valorizada, é pouco ouvida. Todavia, no centro da vida da Igreja está a Mãe de Jesus. Talvez as mães, prontas para muitos sacrifícios pelos filhos, e frequentemente também pelos dos outros, deveriam ser escutadas. Seria necessário compreender melhor a sua luta quotidiana para serem eficientes no trabalho e diligentes e afectuosas em família; seria necessário compreender melhor quais são as suas aspirações a fim de expressar os frutos melhores e autênticos da sua emancipação. Uma mãe com os filhos tem sempre problemas, trabalhos. Lembro-me que em casa, éramos cinco filhos e enquanto um fazia uma travessura, o outro fazia outra, e a minha pobre mãe corria de um lado para o outro, mas era feliz. Deu-nos tanto.

As mães são o antídoto mais forte contra o propagar-se do individualismo egoísta. «Indivíduo» quer dizer «que não se pode dividir». As mães, ao contrário, «dividem-se», a partir do momento que hospedam um filho para o dar à luz e fazer crescer. São elas, as mães, que mais odeiam a guerra, que mata os seus filhos. Muitas vezes pensei naquelas mães quando receberam uma carta: «Digo-lhe que o seu filho morreu em defesa da pátria…». Pobres mulheres! Como sofre uma mãe! São elas que testemunham a beleza da vida. O arcebispo Oscar Arnulfo Romero dizia que as mães vivem um «martírio materno». Na homilia para o funeral de um sacerdote assassinado pelos esquadrões da morte, ele disse, fazendo eco ao Concílio Vaticano II: «Todos devemos estar dispostos a morrer pela nossa fé, ainda que o Senhor não nos conceda esta honra… Dar a vida não significa somente ser assassinado; dar a vida, ter espírito de martírio, é dar no dever, no silêncio, na oração, no cumprimento honesto do dever; naquele silêncio da vida quotidiana; dar a vida pouco a pouco? Sim, como a dá uma mãe que, sem temor, com a simplicidade do martírio materno, concebe no seu seio um filho, dando-o à luz, amamentando-o, fazendo-o crescer e cuidando dele com carinho. É dar a vida. É martírio». Termino aqui a citação. Sim, ser mãe não significa somente colocar um filho no mundo, mas é também uma escolha de vida. O que escolhe uma mãe, qual é a escolha de vida de uma mãe? A escolha de vida de uma mãe é a escolha de dar a vida. E isto é grande, é bonito.

Uma sociedade sem mães seria uma sociedade desumana, porque as mães sabem testemunhar sempre, mesmo nos piores momentos, a ternura, a dedicação, a força moral. As mães transmitem, muitas vezes, também o sentido mais profundo da prática religiosa: nas primeiras orações, nos primeiros gestos de devoção que uma criança aprende, está inscrito o valor da fé na vida de um ser humano. É uma mensagem que as mães que acreditam sabem transmitir sem tantas explicações: estas chegarão depois, mas a semente da fé está naqueles primeiros, preciosíssimos momentos. Sem as mães, não somente não haveria novos fiéis, mas a fé perderia boa parte do seu calor simples e profundo. E a Igreja é mãe, com tudo isso, é nossa mãe! Nós não somos órfãos, temos uma mãe! Nossa Senhora, a mãe Igreja e a nossa mãe. Não somos órfãos, somos filhos da Igreja, somos filhos de Nossa Senhora e somos filhos das nossas mães.

Queridas mães, obrigado, obrigado por aquilo que sois na família e por que o dais à Igreja e ao mundo. E a ti, amada Igreja, obrigado por ser mãe. E a ti, Maria, mãe de Deus, obrigado por nos fazer ver Jesus. E obrigado a todas as mães aqui presentes: saudemo-las com um aplauso!

 

AUDIÊNCIA GERAL

Sala Paulo VI

Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2015

 A Família – 3. A pai (I).

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Retomamos o caminho das catequeses sobre a família. Hoje deixamo-nos guiar pela palavra «pai». Uma palavra que a nós cristãos é muito querida, porque é o nome com o qual Jesus nos ensinou a dirigir-nos a Deus: pai. O sentido deste nome recebeu uma nova profundidade precisamente a partir do momento em que Jesus o usava para se dirigir a Deus e manifestar a sua relação especial com Ele. O mistério bendito da intimidade de Deus, Pai, Filho e Espírito, revelado por Jesus, é o coração da nossa fé cristã.

«Pai» é uma palavra que todos conhecem, é uma palavra universal. Ela indica uma relação fundamental cuja realidade é antiga como a história do homem. Contudo, hoje chegou-se a afirmar que a nossa seria «uma sociedade sem pais». Noutros termos, sobretudo na cultura ocidental, a figura do pai estaria simbolicamente ausente, esvaecida, removida. Num primeiro momento, isto foi sentido como uma libertação: libertação do pai-patrão, do pai como representante da lei que se impõe de fora, do pai como censor da felicidade dos filhos e impedimento à emancipação e à autonomia dos jovens. Por vezes havia casas em que no passado reinava o autoritarismo, em certos casos até a prepotência: pais que tratavam os filhos como servos, sem respeitar as exigências pessoais do seu crescimento; pais que não os ajudavam a empreender o seu caminho com liberdade — mas não é fácil educar um filho em liberdade —; pais que não os ajudavam a assumir as próprias responsabilidades para construir o seu futuro e o da sociedade.

Certamente, esta não é uma boa atitude; mas, como acontece muitas vezes, passa-se de um extremo ao outro. O problema nos nossos dias não parece ser tanto a presença invadente dos pais, mas ao contrário a sua ausência, o seu afastamento. Por vezes os pais estão tão concentrados em si mesmos e no próprio trabalho ou então nas próprias realizações pessoais, que se esquecem até da família. E deixam as crianças e os jovens sozinhos. Quando eu era bispo de Buenos Aires apercebia-me do sentido de orfandade que vivem os jovens de hoje; e muitas vezes perguntava aos pais se brincavam com os seus filhos, se tinham a coragem e o amor de perder tempo com os filhos. E a resposta era feia, na maioria dos casos: «Mas, não posso, porque tenho tanto trabalho…». E o pai estava ausente daquele filho que crescia, não brincava com ele, não, não perdia tempo com ele.

Mas, neste caminho comum de reflexão sobre a família, gostaria de dizer a todas as comunidades cristãs que devemos estar mais atentos: a ausência da figura paterna da vida das crianças e dos jovens causa lacunas e feridas que podem até ser muito graves. Com efeito os desvios das crianças e dos adolescentes em grande parte podem estar relacionados com esta falta, com a carência de exemplos e de guias respeitáveis na sua vida de todos os dias, com a falta de proximidade, com a carência de amor por parte dos pais. É mais profundo de quanto pensamos o sentido de orfandade que vivem tantos jovens.

São órfãos na família, não dão aos filhos, com o seu exemplo acompanhado pelas palavras, aqueles princípios, aqueles valores, aquelas regras de vida das quais precisam como do pão. A qualidade educativa da presença paterna é tanto mais necessária quanto mais o pai é obrigado pelo trabalho a estar distante de casa. Por vezes parece que os pais não sabem bem que lugar ocupar na família e como educar os filhos. E então, na dúvida, abstêm-se, retiram-se e descuidam as suas responsabilidades, talvez refugiando-se numa relação improvável «ao nível» dos filhos. É verdade que deves ser «companheiro» do teu filho, mas sem esquecer que és o pai! Se te comportas só como um companheiro igual ao teu filho, isto não será bom para o jovem. E vemos este problema também na comunidade civil. A comunidade civil com as suas instituições, tem uma certa responsabilidade — podemos dizer paterna — em relação aos jovens, uma responsabilidade que por vezes descuida e exerce mal. Também ela muitas vezes os deixa órfãos e não lhes propõe uma verdadeira perspectiva. Assim, os jovens permanecem órfãos de caminhos seguros para percorrer, órfãos de mestres nos quais confiar, órfãos de ideais que aqueçam o coração, órfãos de valores e de esperanças que os amparem diariamente. Talvez sejam ídolos em abundância mas é-lhes roubado o coração; são estimulados a sonhar divertimentos e prazeres, mas não lhes é dado trabalho; são iludidos com o deus dinheiro, mas são-lhes negadas as verdadeiras riquezas.

E então fará bem a todos, aos pais e aos filhos, ouvir de novo a promessa que Jesus fez aos seus discípulos: «Não vos deixarei órfãos» (Jo 14, 18). De facto, Ele é o Caminho a percorrer, o Mestre a ouvir, a Esperança de que o mundo pode mudar, de que o amor vence o ódio, que pode haver um futuro de fraternidade e de paz para todos. Algum de vós poderia dizer-me: «Mas Padre, hoje foi demasiado negativo. Só falou da ausência dos pais, do que acontece quando os pais não acompanham o crescimento dos filhos… É verdade, quis frisar isto, porque na próxima quarta-feira continuarei esta catequese pondo em evidência a beleza da paternidade. Por isso escolhi começar pela escuridão para chegar à luz. Que o Senhor nos ajude a compreender bem estas coisas. Obrigado.

 

AUDIÊNCIA GERAL

Sala Paulo VI

Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2015

  A Família – 3. A pai (II).

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje gostaria de apresentar a segunda parte da reflexão sobre a figura do pai de família. Na última catequese falei sobre o perigo dos pais «ausentes», e hoje quero considerar acima de tudo o aspecto positivo. Também são José teve a tentação de deixar Maria, quando descobriu que ela estava grávida; mas interveio o anjo do Senhor, que lhe revelou o desígnio de Deus e a sua missão de pai putativo; e José, homem justo, «recebeu em casa a sua esposa» (Mt1, 24), tornando-se o pai da família de Nazaré.

Todas as famílias têm necessidade do pai. Hoje meditamos sobre o valor do seu papel, e gostaria de começar com algumas expressões que se encontram no Livro dos Provérbios, palavras que um pai dirige ao próprio filho, dizendo assim: «Meu filho, se o teu espírito for sábio, o meu coração alegrar-se-á contigo! Os meus rins estremecerão de alegria, quando os teus lábios proferirem palavras rectas» (Pr 23, 15-16). Não se poderia expressar melhor o orgulho e a emoção de um pai que reconhece que transmitiu ao seu filho aquilo que realmente conta na vida, ou seja, um coração sábio. Este pai não diz: «Sinto-me orgulhoso de ti, porque és precisamente igual a mim, repetes as palavras que pronuncio e aquilo que faço». Não, não se limita simplesmente a dizer-lhe algo. Diz-lhe uma coisa muito mais importante, que poderíamos interpretar assim: «Serei feliz cada vez que te vir agir com sabedoria e comover-me-ei todas as vezes que te ouvir falar com rectidão. Foi isto que desejei deixar-te, para que se tornasse algo teu: a atitude de ouvir e agir, de falar e julgar com sabedoria e rectidão. E para que pudesses ser assim, ensinei-te coisas que não sabias, corrigi erros que não vias. Fiz-te sentir um afago profundo e ao mesmo tempo discreto, que talvez não tenhas reconhecido plenamente quando eras jovem e incerto. Dei-te um testemunho de rigor e de firmeza que talvez não entendesses, quando só querias cumplicidade e tutela. Fui o primeiro que tive de me pôr à prova da sabedoria do coração e velar sobre os excessos do sentimento e do ressentimento, para poder carregar o peso das incompreensões inevitáveis e encontrar as palavras certas para me fazer entender. Agora — continua o pai — comovo-me quando vejo que tu procuras comportar-te assim com os teus filhos e com todos. Estou feliz por ser teu pai!». É isto que diz um pai sábio, um pai maduro.

Um pai sabe bem quanto custa transmitir esta herança: quanta proximidade, quanta meiguice e quanta firmeza. No entanto, que consolação e recompensa se recebe, quando os filhos honram esta herança! É uma alegria que compensa todos os esforços, que supera qualquer incompreensão e cura todas as feridas.

Portanto, a primeira necessidade é precisamente esta: que o pai esteja presente na família. Que se encontre próximo da esposa, para compartilhar tudo, alegrias e dores, dificuldades e esperanças. E que esteja perto dos filhos no seu crescimento: quando brincam e quando se aplicam, quando estão descontraídos e quando se sentem angustiados, quando se exprimem e quando permanecem calados, quando ousam e quando têm medo, quando dão um passo errado e quando voltam a encontrar o caminho; pai presente, sempre. Estar presente não significa ser controlador, porque os pai demasiado controladores anulam os filhos e não os deixam crescer.

O Evangelho fala-nos da exemplaridade do Pai que está nos céus — o único, diz Jesus, que pode chamar-se verdadeiramente «Pai bom» (cf. Mc 10, 18). Todos conhecem a extraordinária parábola denominada do «filho pródigo», ou melhor, do «pai misericordioso», que se lê no capítulo 15 do Evangelho de Lucas (cf. 15, 11-32). Quanta dignidade e quanta ternura na expectativa daquele pai que está à porta de casa, à espera do regresso do filho! Os pais devem ser pacientes. Muitas vezes nada se pode fazer, a não ser esperar; rezar e esperar com paciência, doçura, generosidade e misericórdia.

Um pai bom sabe esperar e perdoar, do profundo do coração. Sem dúvida, também sabe corrigir com firmeza: não se trata de um pai fraco, complacente, sentimental. O pai que sabe corrigir sem aviltar é o mesmo que sabe proteger sem se poupar. Certa vez ouvi numa festa de casamento um pai dizer: «Às vezes tenho que bater um pouco nos filhos… mas nunca no rosto, para não os humilhar». Que bonito! Tem o sentido da dignidade. Deve punir, mas fá-lo de modo correcto e vai em frente.

Por conseguinte, se alguém pode explicar até ao fundo a oração do «Pai-Nosso» ensinada por Jesus, é precisamente quem vive pessoalmente a paternidade. Sem a graça do Pai que está nos céus, os pais perdem a coragem e abandonam o campo. Mas os filhos têm necessidade de encontrar um pai que os espera quando voltam dos seus fracassos. Farão de tudo para não o admitir, para não o revelar, mas precisam dele; quando não o encontram, abrem-se-lhes feridas difíceis de cicatrizar.

A Igreja, nossa mãe, está comprometida em apoiar com todas as suas forças a presença boa e generosa dos pais nas famílias, porque para as novas gerações eles são guardiões e mediadores insubstituíveis da fé na bondade, da fé na justiça e da salvaguarda de Deus, como são José.

 

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2015

  A Família – 4. Os filhos.

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

Depois de ter meditado sobre a figura da mãe e do pai, nesta catequese sobre a família gostaria de falar sobre o filho, ou melhor, os filhos. Inspiro-me numa linda imagem de Isaías. Escreve o profeta: «Os teus filhos vêm ter contigo para se reunir ao teu redor; chegam de longe. E as tuas filhas são carregadas no colo. Esta visão tornar-te-á radiante; o teu coração palpitará e dilatar-se-á!» (60, 4-5a). É uma imagem maravilhosa, uma imagem da felicidade que se realiza na reunião entre os pais e os filhos, que juntos caminham rumo a um futuro de liberdade e paz, após um longo período de privações e separação, quando o povo judeu está distante da pátria.

Com efeito, há um vínculo estreito entre a esperança de um povo e a harmonia entre as gerações. Devemos pensar bem sobre isto. Com efeito, há um vínculo estreito entre a esperança de um povo e a harmonia entre as gerações. A alegria dos filhos faz palpitar o coração dos pais e reabre o porvir. Os filhos são a alegria da família e da sociedade. Não são um problema de biologia reprodutiva, nem um dos numerosos modos de se realizar. E muito menos uma posse dos pais… Não, os filhos constituem um dom, um presente: entendestes? Os filhos são uma dádiva! Cada um é único e irrepetível; mas, ao mesmo tempo, está inconfundivelmente ligado às suas raízes. Com efeito, ser filho e filha, segundo o desígnio de Deus, significa trazer em si a memória e a esperança de um amor que se realizou precisamente acendendo a vida de outro ser humano, original e novo. E para os pais cada filho é singular, diferente, diverso. Permiti-me mencionar uma recordação de família. Lembro-me que de nós a minha mãe dizia — éramos cinco: «Tenho cinco filhos!». Quando lhe perguntavam: «Qual é o teu preferido?», ela respondia: «Tenho cinco filhos, como cinco dedos. [Mostra os dedos da mão] Se batem num, faz-me mal; se batem noutro, também me faz mal. Em todos me faz mal. Todos eles são meus filhos, mas são diferentes como os dedos de uma mão». E assim é a família! Os filhos são diferentes, mas todos são filhos.

Um filho é amado porque é filho: não porque é bonito, nem porque é assim ou diverso; não porque é filho! Não porque pensa como eu, nem porque encarna as minhas aspirações. O filho é filho: uma vida gerada por nós, mas destinada a ele, ao seu bem, ao bem da família, da sociedade, da humanidade inteira.

Daqui deriva também a profundidade da experiência humana do ser filho e filha, que nos permite descobrir a dimensão mais gratuita do amor, que nunca cessa de nos surpreender. É a beleza de ser amado primeiro: os filhos são amados antes de chegar. Quantas vezes encontro na praça mães que me mostram a sua barriga, pedindo a bênção… estas crianças são amadas antes de vir ao mundo. É algo gratuito, isto é amor; elas são amadas antes do nascimento, como o amor de Deus que nos ama sempre antes. São amadas antes de ter feito algo para o merecer, antes de saber falar ou pensar, até antes de vir ao mundo! Ser filho é a condição fundamental para conhecer o amor de Deus, que é a fonte derradeira deste autêntico milagre. Na alma de cada filho, por mais vulnerável que seja, Deus põe o selo deste amor, que está na base da sua dignidade pessoal, uma dignidade que nada, ninguém, poderá destruir.

Hoje parece mais difícil para os filhos imaginar o seu futuro. Os pais — disse-o nas catequeses precedentes — deram, talvez, um passo atrás e os filhos tornaram-se mais incertos na hora de dar passos em frente. Podemos aprender a relação entre as gerações do nosso Pai celeste, que deixa cada um de nós livre mas não sozinho. E quando erramos, Ele continua a acompanhar-nos com paciência, sem diminuir o seu amor por nós. O Pai celeste nunca desiste no seu amor por nós! Progride sempre e se não pode ir em frente, espera por nós, mas nunca caminha para trás; quer que os seus filhos sejam corajosos e que vão em frente.

Os filhos, por sua vez, não devem ter medo do compromisso de construir um mundo novo: é bom que eles desejem que seja melhor do que aquilo que receberam! Mas isto deve ser feito sem arrogância, nem presunção. É preciso saber reconhecer o valor dos filhos, e os pais devem ser sempre honrados.

O quarto mandamento exige que os filhos — como todos sabemos! — honrem o pai e a mãe (cf.Êx 20, 12). Este mandamento vem logo após aqueles que se referem ao próprio Deus. Com efeito, contém algo sagrado, divino, algo que está na raiz de todos os outros tipos de respeito entre os homens. E na formulação bíblica do quarto mandamento acrescenta-se: «para que os teus dias se prolonguem sobre a terra que te dá o Senhor, teu Deus». O vínculo virtuoso entre as gerações é garantia de futuro e de uma sociedade verdadeiramente humana. Uma sociedade de filhos que não honram os pais é uma sociedade sem honra; quando não se honram os pais perde-se a própria honra! É uma sociedade destinada a encher-se de jovens áridos e ávidos. Contudo, inclusive uma sociedade avarenta de geração, que não gosta de se circundar de filhos, que os considera sobretudo uma preocupação, um peso, um risco, é uma sociedade deprimida. Pensemos nas várias sociedades que conhecemos aqui na Europa: são sociedades deprimidas, porque não querem filhos, não têm filhos, e o nível de nascimentos não alcança nem sequer 1%. Porquê? Cada um de nós pense e responda. Se uma família generosa de filhos é considerada como se fosse um peso, algo não funciona! A geração de filhos deve ser responsável, como ensina a Encíclica Humanae vitae, do Beato Papa Paulo VI, mas ter mais filhos não pode tornar-se automaticamente uma escolha irresponsável. Não ter filhos é uma escolha egoísta. A vida rejuvenesce e adquire energias multiplicando-se: enriquece-se, não empobrece! Os filhos aprendem a responsabilizar-se pela sua família, amadurecem na partilha dos seus sacrifícios, crescem no apreço dos seus dons. A feliz experiência da fraternidade anima o respeito e a atenção aos pais, aos quais devemos a nossa gratidão. Muitos de vós aqui presentes têm filhos, e todos nós somos filhos. Façamos algo, um minuto de silêncio. Cada um de nós pense intimamente nos seus próprios filhos — se os tiver — mas em silêncio. E todos nós pensemos nos nossos pais e demos graças a Deus pelo dom da vida. Em silêncio! Quantos têm filhos, pensem neles, e todos pensemos nos nossos pais. [silêncio]. O Senhor abençoe os nossos pais e os vossos filhos!

Jesus, o Filho eterno, que se tornou filho no tempo, nos ajude a encontrar o caminho de uma nova irradiação da experiência humana, tão simples e tão grandiosa, de ser filho. Na multiplicação da geração há um mistério de enriquecimento da vida de todos, que vem do próprio Deus. Devemos voltar a descobri-lo, desafiando os preconceitos; e vivê-lo na fé, na alegria perfeita. E digo-vos: como é agradável quando passo no meio de vós e vejo pais e mães que erguem os seus filhos para ser abençoados; é um gesto quase divino. Obrigado porque o fazeis!

AUDIÊNCIA GERAL

Praça de São Pedro

Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2015

  A Família – 5. Os irmãos.

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

No nosso caminho de catequeses sobre a família, depois de ter meditado sobre o papel da mãe,do pai e dos filhos, agora é a vez dos irmãos. «Irmão» e «irmã» são palavras que o cristianismo aprecia muito. E, graças à experiência familiar, são palavras que todas as culturas e épocas compreendem.

O laço fraternal ocupa um lugar especial na história do povo de Deus, que recebe a sua revelação no vivo da experiência humana. O salmista canta a beleza do vínculo fraterno: «Como é bom, como é agradável os irmãos viverem em unidade!» (Sl 133 [132], 1). E é verdade, a irmandade é bonita! Jesus Cristo levou à sua plenitude também esta experiência humana do ser irmãos e irmãs, assumindo-a no amor trinitário e fortalecendo-a para que vá muito além dos vínculos de parentela e possa superar todos os muros de alienação.

Sabemos que quando a relação fraternal se corrompe, quando se desvirtua o relacionamento entre os irmãos, abre-se o caminho para dolorosas experiências de conflito, traição e ódio. A narração bíblica de Caim e Abel constitui o exemplo deste resultado negativo. Após o assassínio de Abel, Deus pergunta a Caim: «Onde está o teu irmão Abel?» (Gn 4, 9a). É uma interrogação que o Senhor continua a repetir a cada geração. E infelizmente, em cada geração, não cessa de se repetir também a dramática resposta de Caim: «Não sei. Sou porventura eu o guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9b). A ruptura do vínculo entre irmãos é algo desagradável e negativo para a humanidade. Também em família, quantos irmãos discutem por causa de coisas insignificantes, ou de uma herança, e depois deixam de se comunicar, de se saudar uns aos outros. Isto é feio! A fraternidade é algo grandioso, quando se pensa que todos os irmãos habitaram no ventre da mesma mãe, durante nove meses, e vêm da carne da mesma mãe! E não se pode interromper a fraternidade. Pensemos um pouco: todos nós conhecemos famílias com irmãos divididos, que discutiram; peçamos ao Senhor por estas famílias — talvez na nossa família haja alguns casos — que as ajude a reunir os irmãos, a reconstruir a família. A fraternidade não se deve interromper, porque quando se interrompe, verifica-se o que aconteceu com Caim e Abel. Quando o Senhor pergunta a Caim onde estava o seu irmão, ele responde: «Não sei, não me interesso pelo meu irmão!». Isto é desagradável, é algo muito doloroso de ouvir. Nas nossas preces oremos sempre pelos irmãos que se dividiram.

O laço de fraternidade que se forma em família, entre os filhos, quando se verifica num clima de educação para a abertura ao próximo, é uma grande escola de liberdade e paz. Em família, entre irmãos, aprendemos a convivência humana, como devemos conviver na sociedade. Talvez nem sempre estejam0s conscientes disto, mas é precisamente a família que introduz a fraternidade no mundo! A partir desta primeira experiência de fraternidade, alimentada pelos afectos e pela educação familiar, o estilo da fraternidade irradia-se como uma promessa sobre a sociedade inteira e sobre as relações entre os povos.

A bênção que Deus, em Jesus Cristo, derrama sobre este vínculo de fraternidade dilata-o de modo inimaginável, tornando-o capaz de ultrapassar todas as diferenças de nação, língua, cultura e até de religião.

Pensai no que se torna o vínculo entre os homens, mesmo que sejam muito diversos entre si, quando podem dizer uns aos outros: «Para mim, ele é como um irmão, ela é como uma irmã!». Isto é bonito! De resto, a história demonstrou suficientemente que, sem a fraternidade, até a liberdade e a igualdade podem encher-se de individualismo e conformismo, também de interesse pessoal.

A fraternidade em família resplandece de modo especial quando vemos o esmero, a paciência e o carinho com os quais são circundados o irmãozinho ou a irmãzinha mais frágeis, doentes ou deficientes. Os irmãos e as irmãs que agem assim são muitíssimos, no mundo inteiro, e talvez não apreciemos de modo suficiente a sua generosidade. E quando numa família os irmãos são numerosos — hoje saudei uma família com nove filhos: o mais velho ou a mais velha ajuda o pai, a mãe, a cuidar dos mais pequeninos. Como é bonito este trabalho de ajuda entre os irmãos!

Ter um irmão, uma irmã que nos ama é uma experiência forte, inestimável, insubstituível. Acontece o mesmo com a fraternidade cristã. Os mais pequeninos, frágeis e pobres devem enternecer-nos: eles têm o «direito» de arrebatar a nossa alma, o nosso coração. Sim, eles são nossos irmãos, e como tais devemos amá-los e tratá-los. Quando isto acontece, quando os pobres vivem como em casa, a nossa fraternidade cristã retoma vida. Com efeito, os cristãos vão ao encontro dos mais pobres e frágeis não para seguir um programa ideológico, mas porque a palavra e o exemplo do Senhor nos dizem que somos todos irmãos. Este é o princípio do amor de Deus e de toda a justiça entre os homens. Sugiro-vos algo: antes de concluir, só me faltam poucas linhas, cada um de nós pense nos próprios irmãos e irmãs e, no silêncio do coração, reze por eles. Um momento de silêncio!

Eis que com esta prece os trouxemos todos, irmãos e irmãs, com o pensamento, com o coração, aqui à praça para receber a bênção.

Hoje é mais necessário do que nunca repor a fraternidade no centro da nossa sociedade tecnocrática e burocrática: assim, também a liberdade e a igualdade tomarão a sua correcta modulação. Por isso, não privemos com leviandade as nossas famílias, por sujeição ou medo, da beleza de uma ampla experiência fraternal de filhos e filhas. E não percamos a nossa confiança na vastidão de horizonte que a fé é capaz de obter desta experiência, iluminada pela Bênção de Deus.

 

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 4 de Março de 2015

 A Família – 6. Os avós (I).

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

A catequese de hoje e da próxima quarta-feira são dedicadas aos idosos que, no âmbito da família, são os avós, os tios. Agora ponderemos sobre a problemática condição dos idosos de hoje, e na próxima vez, ou seja na próxima quarta-feira, mais em positivo, sobre a vocação contida nesta idade da vida.

Graças aos progressos da medicina, a vida prolongou-se: mas a sociedade não se «ampliou» à vida! O número de idosos multiplicou-se, mas as nossas sociedades não se organizaram suficientemente para lhes deixar espaço, com o justo respeito e a concreta consideração pela sua fragilidade e dignidade. Enquanto somos jovens, somos levados a ignorar a velhice, como se fosse uma enfermidade da qual nos devemos manter à distância; depois, quando envelhecemos, especialmente se somos pobres, doentes e sós, experimentamos as lacunas de uma sociedade programada sobre a eficácia que, consequentemente, ignora os idosos. Mas os idosos são uma riqueza, não podem ser ignorados!

Quando visitou uma casa para idosos, Bento XVI usou palavras claras e proféticas; dizia assim: «A qualidade de uma sociedade, gostaria de dizer de uma civilização, julga-se também pelo modo como se tratam os idosos e pelo lugar que lhes reservam na vida comum» (12 de Novembro de 2012). É verdade, a atenção aos idosos distingue uma civilização. Numa civilização presta-se atenção ao idoso? Há lugar para o idoso? Esta civilização irá em frente se souber respeitar a sabedoria, a experiência dos idosos. Numa civilização em que não há espaço para os idosos ou onde eles são descartados porque criam problemas, tal sociedade traz em si o vírus da morte.

No Ocidente, os estudiosos apresentam o século contemporâneo como o século do envelhecimento: os filhos diminuem, os anciãos aumentam. Este desequilíbrio interpela-nos, aliás, é um grande desafio para a sociedade contemporânea. E no entanto, uma cultura do lucro insiste em fazer com que os idosos pareçam um peso, um «fardo». Esta cultura pensa que não só não produzem, mas chegam a ser uma carga: em síntese, qual é o resultado de um pensamento como este? Devem ser descartados. É feio ver os idosos descartados, é algo desagradável, é pecado! Não se ousa dizê-lo abertamente, mas fazem-no! Há algo de vil neste habituar-se à cultura do descartável. E nós habituamo-nos a descartar as pessoas. Queremos remover o nosso elevado medo da debilidade e da vulnerabilidade; mas agindo deste modo, aumentamos nos anciãos a angústia de serem mal tolerados e até abandonados.

Já no meu ministério em Buenos Aires eu sentia pessoalmente esta realidade com os seus problemas: «Os idosos são abandonados, e não apenas na precariedade material. São abandonados na incapacidade egoísta de aceitar os seus limites, que reflectem os nossos limites, nas numerosas dificuldades que hoje devem superar para sobreviver numa civilização que não lhes permite participar, expressar a sua opinião, ser um ponto de referência segundo o modelo consumista do «só os jovens podem ser úteis e devem gozar». Ao contrário, estes idosos deveriam ser para toda a sociedade a reserva sapiencial do nosso povo. Os anciãos são a reserva sapiencial do nosso povo! Com quanta facilidade se adormece a consciência quando não há amor!» (Solo l’amore ci può salvare, Cidade do Vaticano 2013, pág. 83). E acontece assim. Recordo que quando visitava as casas de repouso, eu falava com cada um e muitas vezes ouvia isto: «Como está o senhor? E os seus filhos? — Bem! — Quantos tem? — Muitos! — E vêm visitá-lo? — Sim, sempre! — Quando vieram a última vez?». Recordo que uma senhora idosa me disse: «Bem no Natal!». Estávamos em Agosto! Oito meses sem ter sido visitada pelos filhos, oito meses abandonada! Isto chama-se pecado mortal, compreendestes? Quando eu era criança, um dia a minha avó narrou-me a história de um avô que se sujava quando comia, porque não conseguia levar bem a colher de sopa à própria boca. E o filho, ou seja o pai de família, decidiu tirá-lo da mesa comum e mandou fazer-lhe uma mesinha na cozinha, onde não se via, para ali comer sozinho. Assim, não faria má figura quando os amigos viessem almoçar ou jantar. Poucos dias depois, chegou a casa e encontrou o seu filho mais pequenino a brincar com um pedaço de madeira, um martelo e alguns pregos; construía algo, e o pai disse-lhe: «Mas o que fazes? — Faço uma mesa, pai. — Uma mesa, porquê? — Para que esteja pronta quando tu envelheceres, assim poderás comer aí!». As crianças têm mais consciência que nós!

Na tradição da Igreja existe uma bagagem de sapiência que sempre sustentou uma cultura de proximidade aos anciãos, uma disposição ao acompanhamento carinhoso e solidário na parte final da vida. Esta tradição está arraigada na Sagrada Escritura, como testemunham por exemplo estas expressões contidas no Livro do Sirácide: «Não desprezes os ensinamentos dos anciãos, dado que eles os aprenderam com os seus pais. Estudarás com eles o conhecimento e a arte de responder de modo oportuno» (Eclo 8, 11-12).

A Igreja não pode e não quer conformar-se com uma mentalidade de intolerância, e muito menos de indiferença e de desprezo, em relação à velhice. Devemos despertar o sentido comunitário de gratidão, de apreço e de hospitalidade, que levem o idoso a sentir-se parte viva da sua comunidade.

Os anciãos são homens e mulheres, pais e mães que antes de nós percorreram o nosso próprio caminho, estiveram na nossa mesma casa, combateram a nossa mesma batalha diária por uma vida digna. São homens e mulheres dos quais recebemos muito. O idoso não é um alieno. O idoso somos nós: daqui a pouco, daqui a muito tempo, contudo inevitavelmente, embora não pensemos nisto. E se não aprendermos a tratar bem os anciãos, também nós seremos tratados assim.

Nós, idosos, somos todos um pouco frágeis. No entanto, alguns são particularmente débeis, muitos vivem sozinhos, marcados por uma enfermidade. Outros dependem de curas indispensáveis e da atenção dos outros. Daremos por isso um passo atrás, abandonando-os ao seu destino? Uma sociedade sem proximidade, onde a gratuitidade e o afago sem retribuição — inclusive entre estranhos — começam a desaparecer, é uma sociedade perversa. Fiel à Palavra de Deus, a Igreja não pode tolerar estas degenerações. Uma comunidade cristã em que a proximidade e a gratuitidade deixassem de ser consideradas indispensáveis perderia juntamente com elas também a sua alma. Onde não há honra pelos idosos não há porvir para os jovens.

 

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 11 de Março de 2015

  A Família – 6. Os avós (II).

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

Na catequese de hoje continuemos a meditar sobre os avós, considerandoo valor e a importância do seu papel na família. Faço-o identificando-me com estas pessoas, porque também eu pertenço a esta faixa etária.

Quando estive nas Filipinas, o povo filipino saudava-me dizendo: «Lolo Kiko» — ou seja, avô Francisco — «Lolo Kiko», diziam! Em primeiro lugar, é importante sublinhar algo: é verdade que a sociedade tende a descartar-nos, mas certamente não o Senhor. O Senhor nunca nos descarta! Ele chama-nos a segui-lo em todas as fases da vida, e inclusive a velhice recebe uma graça e uma missão, uma verdadeira vocação do Senhor. A velhice é uma vocação! Ainda não chegou o momento de «nos resignarmos». Sem dúvida, este período da vida é diferente dos precedentes; devemos também «inventá-lo» um pouco porque, espiritual e moralmente, as nossas sociedades não estão prontas para lhe conferir, a este momento da vida, o seu pleno valor. Com efeito, outrora não era tão normal ter tempo à disposição; hoje é-o muito mais. E inclusive a espiritualidade cristã foi um pouco surpreendida, e trata-se de delinear uma espiritualidade das pessoas idosas. Mas graças a Deus não faltam testemunhos de santos e santas idosos!

Fiquei muito surpreendido com o «Dia dos idosos», que pudemos celebrar aqui na praça de São Pedro no ano passado: a praça estava apinhada! Ouvi histórias de idosos que se prodigalizam pelo próximo, mas também histórias de casais que me diziam: «Celebramos 50 anos de matrimónio, festejamos o sexagésimo aniversário de casamento». É importante mostrá-lo aos jovens, que se cansam depressa; é importante o testemunho dos idosos na fidelidade. E nesta praça havia um grande número deles naquele dia. Trata-se de uma reflexão que deve prosseguir, tanto em âmbito eclesial como civil. O Evangelho vem ao nosso encontro com uma imagem muito bonita, comovente e encorajadora. É a imagem de Simeão e Ana, dos quais nos fala o Evangelho da infância de Jesus, composto por são Lucas. Certamente eram idosos, o «velho» Simeão e a «profetisa» Ana, que tinha 84 anos. Aquela mulher não escondia a sua idade! O Evangelho diz-nos que todos os dias esperavam a vinda de Deus, com grande fidelidade, havia muitos anos. Queriam realmente ver aquele dia, captar os seus sinais, intuir o seu início. Talvez já se tivessem um pouco resignado a morrer antes: no entanto, aquela longa expectativa continuava a ocupar toda a vida deles, e não tinham compromissos mais importantes do que este: esperar o Senhor e rezar. Pois bem, quando Maria e José chegaram ao templo para cumprir os preceitos da Lei, Simeão e Ana apressaram-se, animados pelo Espírito Santo (cf. Lc 2, 27). O peso da idade e da espera esvaeceu num instante. Eles reconheceram o Menino e descobriram uma nova força, para uma renovada tarefa: dar graças e testemunhar este Sinal de Deus. Simeão improvisou um lindo hino de júbilo (cf. Lc 2, 29-32) — naquele momento foi um poeta — e Ana tornou-se a primeira pregadora de Jesus: «Falava de Jesus a todos aqueles que, em Jerusalém, esperavam a libertação» (Lc 2, 38).

Estimados avós, amados idosos, coloquemo-nos no sulco destes anciãos extraordinários! Tornemo-nos, também nós um pouco poetas da oração: adquiramos o gosto de procurar palavras que nos são próprias, voltando a apoderar-nos daquelas que a Palavra de Deus nos ensina. É um grande dom para a Igreja, a oração dos avós e dos idosos! A oração dos anciãos e dos avós é uma dádiva para a Igreja uma riqueza! Uma grande dose de sabedoria também para toda a sociedade humana: sobretudo para aquela que vive demasiado ocupada, absorvida, distraída. Contudo, também por eles alguém deve cantar os sinais de Deus, proclamar os sinais de Deus, rezar por eles! Observemos Bento XVI, que quis passar na oração e na escuta de Deus a última fase da sua vida! Isto é bonito! Um grande crente de tradição ortodoxa do século passado, Olivier Clément, dizia: «Uma civilização na qual já não se reza é uma civilização onde a velhice não tem mais sentido. E isto é terrificante! Antes de tudo, temos necessidade de idosos que rezem, porque a velhice nos é concedida para isto». Precisamos de anciãos que orem, pois a velhice nos é oferecida precisamente para isto. A oração dos idosos é bonita!

Podemos dar graças ao Senhor pelos benefícios recebidos, e preencher o vazio da ingratidão que o circunda. Podemos interceder pelas expectativas das novas gerações e conferir dignidade à memória e aos sacrifícios das passadas. Podemos recordar aos jovens ambiciosos que uma existência sem amor é uma vida árida. Podemos dizer aos jovens medrosos que a angústia em relação ao futuro pode ser derrotada. Podemos ensinar aos jovens demasiado apaixonados por si mesmos que há mais alegria em dar do que em receber. Os avôs e as avós formam o «coral» permanente de um grande santuário espiritual, onde a oração de súplica e o canto de louvor sustentam a comunidade que trabalha e luta no campo da vida.

Enfim, a oração purifica incessantemente o coração. O louvor e a súplica a Deus evitam o endurecimento do coração no ressentimento e no egoísmo. Como é desagradável o cinismo de um idoso que perdeu o sentido do seu testemunho, despreza os jovens e não comunica uma sabedoria de vida! Ao contrário, como é bonito o encorajamento que o ancião consegue transmitir ao jovem em busca do sentido da fé e da vida! Esta é verdadeiramente a missão dos avós, a vocação dos idosos! As palavras dos avós têm algo de especial para os jovens. E eles sabem-no! As palavras que a minha avó me confiou por escrito no dia da minha ordenação sacerdotal, ainda as tenho comigo, sempre no breviário; leio-as com frequência e isto faz-me bem.

Como gostaria de uma Igreja que desafia a cultura do descartável com a alegria transbordante de um novo abraço entre jovens e idosos! E é isto, este abraço, que hoje peço ao Senhor!

 

AUDIÊNCIA GERAL

Praça São Pedro

Quarta-feira, 18 de Março de 2015

 A Família – 7. As crianças (I).

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Depois de ter passado em revista as diversas figuras da vida familiar — mãepaifilhosirmãos eavós — gostaria de concluir esta primeira série de catequeses sobre a família, falando das crianças. Fá-lo-ei em dois momentos: hoje, meditarei sobre a grande dádiva que elas são para a humanidade — é verdade, são um dom grandioso para a humanidade, mas são também as grandes excluídas, porque nem sequer as deixam nascer — e proximamente falarei sobre algumas feridas que infelizmente prejudicam a infância. Vêm-me ao pensamento as numerosas crianças que encontrei durante a minha última viagem à Ásia: cheias de vida e entusiasmo e, por outro lado, vejo que no mundo muitas vivem em condições indignas… Com efeito, pode-se julgar a sociedade pelo modo como as crianças são tratadas, e não só moral mas também sociologicamente, se é uma sociedade livre ou escrava de interesses internacionais.

Em primeiro lugar, as crianças recordam-nos que todos, nos primeiros anos de vida, somos totalmente dependentes dos cuidados e da benevolência dos outros. E o Filho de Deus não evitou esta passagem. É o mistério que contemplamos todos os anos, no Natal. O Presépio é o ícone que nos comunica tal realidade do modo mais simples e directo. Mas é curioso: Deus não tem dificuldade de se fazer entender pelas crianças, e as crianças não têm problemas em compreender Deus. Não é por acaso que no Evangelho Jesus profere palavras muito bonitas e fortes sobre os «pequeninos». Este termo, «pequeninos», indica todas as pessoas que dependem da ajuda dos outros e, de modo especial, as crianças. Por exemplo, Jesus diz: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, revelando-as aos pequeninos» (Mt 11, 25). E acrescenta: «Guardai-vos de menosprezar um só destes pequeninos, porque Eu vos digo que os seus anjos no céu contemplam sem cessar a face do meu Pai que está nos céus» (Mt 18, 10).

Assim, as crianças são em si uma riqueza para a humanidade e também para a Igreja, porque nos chamam constantemente à condição necessária para entrar no Reino de Deus: a de não nos considerarmos auto-suficientes, mas necessitados de ajuda, de amor, de perdão. E todos nós precisamos de ajuda, de amor, de perdão!

As crianças recordam-nos mais uma bonita realidade; recordam-nos que somos sempre filhos: até quando nos tornamos adultos, ou mesmo quando somos pais ou desempenhamos funções de responsabilidade, por detrás de tudo isto permanece a identidade de filhos. Todos nós somos filhos. E isto recorda-nos sempre que a vida não no-la damos sozinhos, mas recebemo-la. O grande dom da vida é o primeiro presente que recebemos. Às vezes corremos o risco de viver esquecidos disto, como se nós fôssemos os senhores da nossa existência mas, ao contrário, somos radicalmente dependentes. Na realidade, é motivo de profunda alegria sentir que em todas as fases da vida, em cada situação e condição social, somos e permanecemos filhos. Esta é a mensagem principal que as crianças nos transmitem com a sua própria presença: só com a sua presença já nos recordam que cada um e todos somos filhos.

Mas há muitos dons e riquezas que as crianças oferecem à humanidade. Recordo apenas alguns deles.

Dão-lhe o seu modo de ver a realidade, com um olhar confiante e puro. A criança tem uma confiança espontânea no seu pai e na sua mãe; uma confiança espontânea em Deus, em Jesus, em Nossa Senhora. Ao mesmo tempo, o seu olhar interior é puro, ainda não poluído pela malícia, pelas ambiguidades, pelas «incrustações» da vida que endurecem o coração. Sabemos que até as crianças têm em si o pecado original, com os seus egoísmos, mas conservam uma pureza e uma simplicidade interior. E as crianças não são diplomáticas: dizem o que sentem, o que vêem, directamente. E muitas vezes põem os pais em dificuldade, dizendo diante de outras pessoas: «Não gosto disto, isto é feio!». Mas as crianças dizem o que vêem, não são pessoas ambíguas, ainda não aprenderam a ciência da duplicidade que nós adultos, infelizmente, aprendemos.

Além disso, as crianças — na sua simplicidade interior — têm em si a capacidade de receber e dar ternura. Ternura significa ter um coração «de carne» e não «de pedra», como diz a Bíblia (cf. Ez36, 26). A ternura é também poesia: é «sentir» as situações e os eventos, sem os tratar como meros objectos, só para os usar, porque servem…

As crianças têm a capacidade de sorrir e de chorar. Algumas, quando pego nelas ao colo para as abraçar, sorriem; outras, quando me vêem vestido de branco, pensam que sou o médico que vim para lhes dar a vacina, e choram… mas espontaneamente! As crianças são assim: sorriem e choram, duas situações que em nós, adultos, com frequência se bloqueiam»; já não somos capazes… Muitas vezes o nosso sorriso torna-se de papelão, sem vida, um sorriso que não é vivaz, um sorriso artificial, de palhaço. As crianças sorriem e choram espontaneamente. Depende sempre do coração, e muitas vezes é o nosso coração que se bloqueia e perde a capacidade de sorrir e de chorar. E então, as crianças podem ensinar-nos novamente a sorrir e a chorar. Mas nós devemos perguntar: sorrio espontaneamente, com vivacidade, com amor, ou o meu sorriso é artificial? Ainda choro, ou perdi a capacidade de chorar? Duas perguntas muito humanas, que as crianças nos ensinam.

Por todos estes motivos, Jesus convida os seus discípulos a «tornar-se como as crianças», pois é «a quantos são como elas que pertence o Reino de Deus» (cf. Mt 18, 3; Mc 10, 14).

Caros irmãos e irmãs, as crianças trazem vida, alegria, esperança e também problemas. Mas a vida é assim! Sem dúvida, trazem inclusive preocupações e por vezes muitas problemáticas; mas é melhor uma sociedade com estas preocupações e estes problemas, do que uma sociedade triste e cinzenta, porque permaneceu sem filhos! Quando vemos que o nível demográfico de uma sociedade só alcança um por cento, podemos dizer que esta sociedade é triste e cinzenta, pois permanecem sem crianças!

 

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 8 de Abril de 2015

A Família – 7. As crianças (II).

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

Nas catequeses sobre a família, hoje completamos a reflexão sobre as crianças, que são o fruto mais bonito da bênção que o Criador concedeu ao homem e à mulher. Já pudemos falar sobre o grande dom que são as crianças, e hoje infelizmente devemos falar sobre as «histórias de paixão» que muitas delas vivem.

Desde o início, numerosas crianças são rejeitadas, abandonadas e subtraídas à sua infância e ao seu futuro. Alguns ousam dizer, como que para se justificar, que foi um erro tê-las feito vir ao mundo. Isto é vergonhoso! Por favor, não descarreguemos as nossas culpas sobre as crianças! Elas nunca são «um erro». A sua fome não é um erro, como não o é a sua pobreza, a sua fragilidade, o seu abandono — muitas crianças abandonadas pelas ruas; e não o é nem sequer a sua ignorância, ou a sua incapacidade — numerosas crianças que não sabem o que é uma escola. Eventualmente, estes são motivos para as amar mais, com maior generosidade. Que fazemos das solenes declarações dos direitos do homem e dos direitos da criança, se depois punimos as crianças pelos erros dos adultos?

Quantos têm a tarefa de governar e educar, mas diria todos nós adultos, somos responsáveis pelas crianças e por fazer cada qual o que pode para mudar esta situação. Refiro-me à «paixão» das crianças. Cada criança marginalizada, abandonada, que vive pelas ruas a pedir esmola com todos os tipos de expedientes, sem ir à escola, sem cuidados médicos, é um clamor que sobe até Deus e acusa o sistema que nós, adultos, construímos. E infelizmente estas crianças são presas dos criminosos, que as exploram para tráficos ou comércios indignos, ou que as treinam para a guerra e a violência. Mas também nos países chamados ricos muitas crianças vivem dramas que as marcam de maneira pesada, por causa da crise da família, dos vazios educativos e de condições de vida por vezes desumanas. Contudo, são infâncias violadas no corpo e na alma. Mas nenhuma destas crianças é esquecida pelo Pai que está nos céus! Nenhuma das suas lágrimas deve ser perdida! Como não se pode extraviar a nossa responsabilidade, a responsabilidade social das pessoas, de cada um de nós e dos países.

Certa vez, Jesus repreendeu os seus discípulos porque afastavam as crianças que os pais lhe traziam para ser abençoadas. A narração evangélica é comovedora: «Foram-lhe, então, apresentadas algumas criancinhas para que lhes impusesse as mãos e orasse por elas. Os discípulos, porém, afastavam-nas. Disse-lhes então Jesus: “Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhe assemelham!”. E, depois de lhes impor as mãos, continuou pelo seu caminho» (Mt 19, 13-15). Como são bonitas esta confiança dos pais e a resposta de Jesus! Como gostaria que esta página se tornasse a história normal de todas as crianças! É verdade que, graças a Deus, as crianças com graves dificuldades têm muitas vezes pais extraordinários, prontos a qualquer sacrifício e e generosidade! Mas estes pais não deveriam ser abandonados a si mesmos! Deveríamos acompanhá-los nas suas canseiras, mas também oferecer-lhes momentos de alegria compartilhada e de júbilo descontraído, para que não se ocupem unicamente da rotina terapêutica.

Contudo, quando se trata de crianças não se deveriam ouvir aquelas fórmulas oficiais de defesa legal, como por exemplo: «Em última análise, não somos uma entidade de beneficência»; ou então: «Na vida particular, cada um é livre de fazer o que quiser»; ou ainda: «Lamentamos, mas nada podemos fazer». Estas palavras não são úteis, quando se trata de crianças.

Muitas vezes recaem sobre as crianças os efeitos de vidas desgastadas por um trabalho precário e mal pago, por horários insustentáveis, por transportes ineficazes… Mas as crianças pagam também o preço de uniões imaturas e de separações irresponsáveis: elas são as primeiras vítimas; padecem os resultados da cultura dos direitos subjectivos exasperados e depois tornam-se os seus filhos mais precoces. Absorvem frequentemente violências que não são capazes de «liquidar» e, aos olhos dos adultos, são obrigados a habituar-se à degradação.

Inclusive nesta nossa época, como no passado, a Igreja põe a sua maternidade ao serviço das crianças e das suas famílias. Aos pais e aos filhos deste nosso mundo leva a bênção de Deus, a ternura materna, a reprovação firme e a condenação decidida. Não se brinca com as crianças!

Pensai no que seria uma sociedade que decidisse, de uma vez para sempre, estabelecer este princípio. É verdade que não somos perfeitos, e que cometemos muitos erros. Mas quando se trata de crianças que vêm ao mundo, nenhum sacrifício dos adultos será julgado demasiado oneroso ou grande, contanto que se evite que uma criança chegue a pensar que é um erro, que não vale nada e que está abandonada às feridas da vida e à prepotência dos homens». Como seria bonita uma sociedade assim! Digo que a tal sociedade muitos dos seus inúmeros erros seriam perdoados. Verdadeiramente muitos!

O Senhor julga a nossa vida, ouvindo aquilo que lhe dizem os anjos das crianças, anjos que «contemplam sem cessar a face do Pai que está nos céus» (cf. Mt 18, 10). Perguntemo-nos sempre: que dirão de nós a Deus, estes anjos das crianças?

 

DISCURSO DO PAPA FRANCISCO
À ASSOCIAÇÃO NACIONAL DAS FAMÍLIAS NUMEROSAS

Sala Paulo VI

Domingo, 28 de Dezembro de 2014

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Antes de tudo, uma pergunta e uma curiosidade. Dizei-me: a que horas levantastes hoje? Às 6h? Às 5h? E não tendes sono? mas eu com este discurso far-vos-ei dormir!

Estou feliz por me encontrar convosco por ocasião do décimo aniversário da associação que reúne na Itália as famílias numerosas. Vê-se que vós amais a família e a vida! E é bom dar graças ao Senhor por isto no dia em que celebramos a Sagrada Família.

O Evangelho de hoje mostra-nos Maria e José que levam o Menino Jesus ao templo, e ali encontram dois idosos, Simeão e Ana, que profetizam sobre a Criança. É a imagem de uma família «alargada», um pouco como são as vossas famílias, onde as diversas gerações se encontram e se ajudam. Agradeço a D. Paglia, Presidente do Pontifício Conselho para a Família — especialista em fazer estas coisas — que desejou muito este momento, e a D. Beschi, que colaborou fortemente para fazer nascer e crescer a vossa Associação, surgida na cidade do beatoPaulo VI, Brescia.

Viestes com os frutos mais bonitos do vosso amor. Maternidade e paternidade são dons de Deus, mas acolher o dom, surpreender-se com a sua beleza e fazê-lo resplandecer na sociedade, este é a vossa tarefa. Cada um dos vossos filhos é uma criatura única que não se repetirá nunca mais na história da humanidade. Quando se compreende isto, ou seja, que cada um foi desejado por Deus, ficamos surpreendidos que um filho seja um grande milagre! Um filho muda a vida! Todos nós vimos — homens, mulheres, que quando chega um filho a vida muda, é outra coisa. Um filho é um milagre que muda a vida. Vós, meninas e meninos, sois precisamente isto: cada um de vós é fruto único do amor, vindes do amor e cresceis no amor. Sois únicos, mas não sozinhos! E o facto de terdes irmãos e irmãs vos faz bem: os filhos e as filhas de uma família numerosa são mais capazes de comunhão fraterna desde a primeira infância. Num mundo muitas vezes marcado pelo egoísmo, a família numerosa é uma escola de solidariedade e de partilha; e destas atitudes beneficia toda a sociedade.

Vós, crianças e jovens, sois os frutos da árvore que é a família: sois frutos bons quando a árvore tem boas raízes — que são os avós — e um bom tronco — que são os pais. Jesus dizia que cada árvore boa dá bons frutos; toda a árvore má dá maus frutos (cf. Mt 7, 17). A grande família humana é como uma floresta, onde as árvores boas trazem solidariedade, comunhão, confiança, apoio, segurança, sobriedade feliz, amizade. A presença das famílias numerosas é uma esperança para a sociedade. E por isso é muito importante a presença dos avós: uma presença preciosa quer pela ajuda prática quer sobretudo pela contribuição educativa. Os avós conservam em si os valores de um povo, de uma família, e ajudam os pais a transmiti-los aos filhos. No século passado, em muitos países da Europa, foram os avós que transmitiam a fé: levavam a criança, às escondidas, para receber o Baptismo e transmitiam a fé.

Caros pais, estou-vos grato pelo exemplo de amor à vida, que vós protegeis desde a concepção ao seu fim natural, ainda que com todas as dificuldades e pesos da vida, e que infelizmente as instituições públicas nem sempre vos ajudam a suportar. Justamente vós recordais que a Constituição italiana, artigo 31, pede uma atenção especial às famílias numerosas; mas isto não encontra uma resposta adequada nos factos. Permanece nas palavras. Portanto espero, também pensando na baixa taxa de natalidade que desde há tempos se regista na Itália, uma maior atenção da política e dos administradores públicos, a todos os níveis, a fim de dar o apoio previsto a estas famílias. Cada família é célula da sociedade, mas a família numerosa é uma célula mais rica, mais vital, e o Estado tem todo o interesse em investir nela!

Bem-vindas por isso as famílias reunidas em associações — como esta italiana e como aquelas de outros países europeus, aqui representadas — e bem-vinda uma rede de associações familiares capaz de estar presente e visível na sociedade e na política. A este propósito, são João Paulo IIescrevia: «As famílias devem crescer na consciência de serem protagonistas da chamada política familiar e assumir a responsabilidade de transformar a sociedade: de outra forma, as famílias serão as primeiras vítimas daqueles males que se limitaram a observar com indiferença» (Exort. ap. Familiaris consortio, 44). O compromisso que as associações familiares desempenham nos diversos «Fóruns», nacionais e locais, consiste precisamente em promover na sociedade e nas leis do Estado os valores e as necessidades da família.

Sejam bem-vindos também os movimentos eclesiais, nos quais vós membros das famílias numerosas estais particularmente presentes e activos. Agradeço sempre ao Senhor ao ver pais e mães de famílias numerosas, com os seus filhos, comprometidos na vida da Igreja e na sociedade. Por minha parte estou próximo de vós com a oração, e coloco-vos sob a protecção da Sagrada Família de Jesus, José e Maria. E uma boa notícia é que em Nazaré se está a construir uma casa para as famílias do mundo que peregrinam até lá, onde Jesus cresceu em idade, sabedoria e graça (cf. Lc 2, 40).

Rezo em particular pelas famílias mais provadas pela crise económica, por aquelas em que o pai ou a mãe perderam o trabalho — e isto é duro — em que os jovens não conseguem encontrá-lo; as famílias provadas nos afectos mais queridos, tentadas a render-se à solidão e à divisão.

Caros amigos, pais, jovens, crianças e avós, boas festas para todos vós! Cada uma das vossas famílias seja sempre rica da ternura e da consolação de Deus. Com afecto vos bendigo. E, por favor, continuai a rezar por mim, que sou um pouco o avô de todos vós. Rezai por mim! Obrigado.

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
AO SRI LANKA E ÀS FILIPINAS 

(12-19 DE JANEIRO DE 2015)

ENCONTRO DAS FAMÍLIAS

DISCURSO DO SANTO PADRE

Mall of Asia Arena, Manila 

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2015

Queridas famílias,

Queridos amigos em Cristo!

Obrigado pela vossa presença aqui, nesta noite, e pelo testemunho do vosso amor a Jesus e à sua Igreja. Agradeço a D. Reyes, Presidente da Comissão Episcopal para a Família e a Vida, as suas palavras de boas-vindas em vosso nome. De maneira particular, agradeço àqueles que apresentaram o seu testemunho – obrigado! – e partilharam connosco a sua vida de fé. A Igreja nas Filipinas é abençoada pelo apostolado de muitos movimentos que se ocupam da família; agradeço-lhes pelo seu testemunho.

Raramente as Escrituras falam de São José e, quando o fazem, muitas vezes encontramo-lo a repousar, enquanto lhe é revelada em sonho a vontade de Deus. No texto do Evangelho que acabámos de ouvir, encontramos, não uma mas duas vezes, José a repousar. Nesta noite, quero repousar no Senhor com todos vós. Preciso de repousar no Senhor com as famílias, e recordar a minha família: meu pai, minha mãe, meu avô, minha avó… Hoje eu repouso convosco e quero reflectir convosco sobre o dom da família.

Mas, antes, quero dizer algo sobre o sonho. O meu inglês, porém, é tão pobre! Se mo permitis, vou pedir a Mons. Miles que traduza e eu falarei em espanhol. Tenho em muito apreço o sonhar numa família. Toda a mãe e todo o pai sonharam o seu filho durante nove meses. É verdade ou não? [Sim!]. Sonharam como seria aquele filho… Não é possível uma família sem o sonho. Numa família, quando se perde a capacidade de sonhar, os filhos não crescem, o amor não cresce; a vida debilita-se e apaga-se. Por isso, recomendo-vos que à noite, ao fazer o exame de consciência, vos ponhais também esta pergunta: Hoje sonhei com o futuro dos meus filhos? Hoje sonhei com o amor do meu esposo, da minha esposa? Hoje sonhei com os meus pais, os meus avós que fizeram a vida avançar até mim. É muito importante sonhar. Antes de mais nada, numa família, sonhai. Não percais esta capacidade de sonhar.

E, na vida dos cônjuges, quantas dificuldades se resolvem, se conservarmos um espaço para o sonho, se nos detivermos a pensar no cônjuge e sonharmos com a bondade, com as coisas boas que tem. Por isso, é muito importante recuperar o amor através do sonho de cada dia. Nunca deixeis de ser namorados!

O repouso de José revelou-lhe a vontade de Deus. Neste momento de repouso no Senhor, pondo de lado os nossos numerosos deveres e actividades diárias, Deus fala também a nós. Fala-nos na leitura que ouvimos, nas nossas orações e testemunhos e no silêncio do nosso coração. Reflictamos sobre o que nos está a dizer o Senhor, especialmente no Evangelho desta noite. Há três aspectos deste texto que vos peço para considerardes: primeiro, repousar no Senhor; segundo, levantar-se com Jesus e Maria; terceiro, ser voz profética.

Repousar no Senhor. O repouso, apesar de ser necessário para a saúde das nossas mentes e dos nossos corpos, com frequência é muito difícil de conciliar por causa das numerosas exigências que gravam sobre nós. Mas o repouso é essencial também para a nossa saúde espiritual, para podermos ouvir a voz de Deus e compreender aquilo que nos pede. José foi escolhido por Deus para ser pai putativo de Jesus e marido de Maria. Como cristãos, também vós sois chamados, à semelhança de José, a preparar uma casa para Jesus. Preparar uma casa para Jesus. Preparais uma casa para Ele nos vossos corações, nas vossas famílias, nas vossas paróquias e nas vossas comunidades.

Para ouvir e aceitar a chamada de Deus, para construir uma casa para Jesus, deveis ser capazes de repousar no Senhor. Deveis encontrar cada dia o tempo para repousar no Senhor, para rezar. Rezar é repousar no Senhor. Mas poderíeis dizer-me: Santo Padre, isso sabemos nós; eu quero rezar, mas há tanto que fazer! Devo cuidar dos meus filhos; tenho os deveres de casa; estou demasiado cansado até mesmo para dormir bem. É justo. Isto até pode ser verdade; mas, se não rezarmos, nunca conheceremos a coisa mais importante de todas: a vontade de Deus a nosso respeito. Além disso, durante toda a nossa actividade, na multiplicidade das nossas ocupações, com a nossa oração tudo conseguiremos.

Repousar na oração é particularmente importante para as famílias. É, antes de tudo, na família que aprendemos como rezar. Não esqueçais: quando a família reza unida, permanece unida. Isto é importante. Nela chegamos a conhecer Deus, a crescer como homens e mulheres de fé, a considerar-nos como membros da família mais ampla de Deus, a Igreja. Na família, aprendemos a amar, a perdoar, a ser generosos e disponíveis e não fechados e egoístas. Aprendemos a ir além das nossas próprias necessidades, para encontrar outras pessoas e partilhar as nossas vidas com elas. Por isso é tão importante rezar como família. Tão importante! É por isso que as famílias são tão importantes no plano de Deus para a Igreja. Repousar no Senhor é rezar, unidos em família.

Queria ainda dizer-vos algo de pessoal. Amo muito São José, porque é um homem forte e silencioso. Na minha escrivaninha, tenho uma imagem de São José que dorme e, enquanto dorme, cuida da Igreja. Sim! Pode fazê-lo, como sabemos. E, quando tenho um problema, uma dificuldade, escrevo um bilhetinho e meto-o debaixo de São José, para que o sonhe. Este gesto significa: reza por este problema.

Agora vejamos o segundo ponto: levantar-se com Jesus e Maria. Estes momentos preciosos de repouso, duma pausa com o Senhor na oração, talvez gostássemos de poder prolongá-los. Mas, como São José, uma vez que se ouviu a voz de Deus, temos de despertar do nosso sono; devemos levantar-nos e agir (cf. Rm 13, 11). Em família, devemos levantar-nos e agir. A fé não nos tira do mundo, mas insere-nos mais profundamente nele. Isto é muito importante. Devemos caminhar em profundidade no mundo, mas com a força da oração. Na realidade, a cada um de nós cabe um papel especial na preparação da vinda do Reino de Deus ao nosso mundo.

Tal como o dom da Sagrada Família foi confiado a São José, assim também o dom da família e o seu lugar no plano de Deus estão confiados a nós. Como a São José. O dom da Sagrada Família foi confiado a São José, para que o levasse por diante. A cada um de vós – e de nós, porque também eu sou filho duma família – é confiado o plano de Deus, para que seja levado por diante. O Anjo do Senhor revelou a José os perigos que ameaçavam Jesus e Maria, obrigando-os a fugir para o Egipto e, em seguida, estabelecer-se em Nazaré. De igual modo, no nosso tempo, Deus chama-nos a reconhecer os perigos que ameaçam as nossas próprias famílias e a protegê-las do mal.

Existem colonizações ideológicas que procuram destruir a família. Não nascem do sonho, da oração, do encontro com Deus, da missão que Deus nos dá. Provêm de fora; por isso, digo que são colonizações. Não percamos a liberdade da missão que Deus nos dá, a missão da família E assim como os nossos povos, num determinado momento da sua história, chegaram à maturidade de dizer «não» a qualquer colonização política, assim também como família devemos ser muito sagazes, muito hábeis, muito fortes, para dizer «não» a qualquer tentativa de colonização ideológica da família. E pedir a intercessão de São José, que é amigo do Anjo, para saber quando podemos dizer «sim» e quando devemos dizer «não».

Hoje os pesos que gravam sobre a vida da família são muitos. Aqui, nas Filipinas, inumeráveis famílias sofrem ainda as consequências das catástrofes naturais. A situação económica provocou a fragmentação das famílias com a emigração e a busca de um emprego, para além dos problemas financeiros que atormentam muitos lares domésticos. Enquanto muitas pessoas vivem em pobreza extrema, outras caem nas malhas do materialismo e de estilos de vida que abolem a vida familiar e as exigências mais fundamentais da moral cristã. Estas são as colonizações ideológicas. A família está ameaçada também pelos crescentes esforços de alguns em redefinir a própria instituição do matrimónio mediante o relativismo, a cultura do efémero, a falta de abertura à vida.

Penso no Beato Paulo VI. Num período em que se propunha o problema do crescimento demográfico, teve a coragem de defender a abertura à vida na família. Ele conhecia as dificuldades que havia em cada família; por isso, na sua Encíclica, era tão misericordioso com os casos particulares. E pediu aos confessores que fossem muito misericordiosos e compreensivos com os casos particulares. Mas ele olhou mais longe: olhou os povos da terra e viu esta ameaça da destruição da família pela falta de filhos. Paulo VI era corajoso, era um bom pastor e avisou as suas ovelhas a propósito dos lobos que chegavam. Que ele, lá do Céu, nos abençoe nesta tarde!

O nosso mundo tem necessidade de famílias sãs e fortes para superar estas ameaças. As Filipinas precisam de famílias santas e cheias de amor para proteger a beleza e a verdade da família no plano de Deus e servir de apoio e exemplo para as outras famílias. Toda a ameaça à família é uma ameaça à própria sociedade. O futuro da humanidade – como várias vezes disse São João Paulo II – passa através da família (cf. Familiaris consortio, 85). O futuro passa através da família. Por isso, guardai as vossas famílias. Protegei as vossas famílias! Vede nelas o maior tesouro da vossa nação, e alimentai-as sempre com a oração e a graça dos sacramentos. As famílias sempre terão as suas provações, não precisam que lhes junteis mais! Pelo contrário, sede exemplos de amor, perdão e solicitude. Sede santuários de respeito pela vida, proclamando a sacralidade de toda a vida humana desde a concepção até à morte natural. Que grande dom seria isto para a sociedade: cada família cristã viver plenamente a sua nobre vocação! Então, levantai-vos com Jesus e Maria e disponde-vos a percorrer a estrada que o Senhor traça para cada um de vós.

Por fim, o Evangelho que ouvimos recorda-nos que o nosso dever de cristãos é ser vozes proféticas no meio das nossas comunidades. José ouviu a voz do Anjo do Senhor e respondeu à chamada que Deus lhe fez de cuidar de Jesus e Maria. Assim desempenhou ele o seu papel no plano de Deus e tornou-se uma bênção não só para a Sagrada Família, mas também para toda a humanidade. Juntamente com Maria, José serviu de modelo para o menino Jesus que ia crescendo em sabedoria, idade e graça (cf. Lc 2, 52). Quando as famílias permitem às crianças nascer para este nosso mundo, as educam na fé e em sãos valores e as ensinam a dar a sua contribuição para a sociedade, tornam-se uma bênção ao seu redor. As famílias podem tornar-se uma bênção para o mundo. O amor de Deus torna-se presente e activo a partir do modo como nós amamos e das boas obras que praticamos. Fazemos crescer o Reino de Cristo neste mundo. Ao fazê-lo, mostramo-nos fiéis à missão profética que recebemos no Baptismo.

Durante este ano consagrado pelos vossos bispos como Ano dos Pobres, pedir-vos-ia que estivésseis, como família, particularmente atentos à vossa chamada para ser discípulos missionários de Jesus. Isto significa estar prontos para ir além dos limites das vossas casas e cuidar dos irmãos e irmãs mais necessitados. Peço que vos interesseis de modo especial por aqueles que não têm uma família própria, particularmente os idosos e as crianças sem pais. Nunca os deixeis sentir-se isolados, sozinhos e abandonados, mas ajudai-os a saber que Deus não os esqueceu. Hoje, depois da Missa, senti-me profundamente comovido ao visitar aquela casa de crianças sozinhas, sem família. E, na Igreja, quantas pessoas trabalham para que aquela casa seja uma família! Isto significa levar por diante, profeticamente, o significado duma família.

E, no caso de vós próprios serdes pobres em sentido material, sabei que tendes uma abundância de dons a distribuir quando ofereceis Cristo e a comunidade da sua Igreja. Não escondais a vossa fé, não escondais Jesus, mas colocai-O no mundo e oferecei o testemunho da vossa vida familiar.

Queridos amigos em Cristo, sabei que rezo sempre por vós. Rezo pelas famílias; rezo mesmo! Rezo para que o Senhor continue a aprofundar o vosso amor por Ele e que este amor se possa manifestar no vosso amor recíproco e pela Igreja. Não esqueçais Jesus que dorme. Não esqueçais São José que dorme. Jesus dormiu com a protecção de José. Não esqueçais: o repouso da família é a oração. Não esqueçais de rezar pela família. Rezai com frequência e levai os frutos da vossa oração para o mundo, a fim de que todos possam conhecer Jesus Cristo e o seu amor misericordioso. Por favor, «dormi» também por mim: rezai também por mim; preciso verdadeiramente das vossas orações e sempre contarei com elas. Muito obrigado!

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
AO SRI LANKA E ÀS FILIPINAS 

(12-19 DE JANEIRO DE 2015)

ENCONTRO COM OS JOVENS

DISCURSO DO SANTO PADRE

Universidade de São Tomás, Manila

Domingo, 18 de Janeiro de 2015

Discurso pronunciado pelo Santo Padre

Começo por uma notícia triste. Ontem, quando estava prestes a principiar a Missa, caiu uma das torres e atingiu uma jovem, que morreu. O seu nome é Cristal. Ela trabalhou na organização daquela Missa. Tinha 27 anos, era jovem como vós e trabalhava para uma associação. Era uma voluntária. Queria que nós todos juntos – vós, jovens como ela – rezássemos em silêncio por um minuto e depois invocássemos a nossa Mãe do Céu.

[Silêncio. Ave Maria…].

Façamos uma oração também por seu pai e sua mãe. Era filha única. A sua mãe está em viagem de Hong Kong, enquanto o pai já chegou a Manila e espera a esposa.

É uma alegria para mim estar hoje convosco. Saúdo cordialmente a cada um de vós e agradeço a todos aqueles que tornaram possível este encontro. Durante a minha visita às Filipinas, senti uma vontade particular de me encontrar convosco, queridos jovens, para vos escutar e falar. Desejo exprimir o amor e a esperança que a Igreja tem por vós. A minha intenção é encorajar-vos, como cidadãos cristãos deste país, na oferta de vós mesmos feita com entusiasmo e honestidade para o grande compromisso de renovar a vossa sociedade e contribuir para a construção de um mundo melhor.

De modo especial, agradeço aos jovens que me dirigiram palavras de boas-vindas: Jun, Leandro e Rikki. Muito obrigado!

Um aparte… sobre a reduzida representação das mulheres. Demasiado pouco! As mulheres têm muito a dizer-nos na sociedade actual. Às vezes somos demasiado machistas, e não deixamos espaço à mulher. Mas a mulher sabe ver as coisas com olhos diferentes dos homens. A mulher sabe fazer perguntas que nós, homens, não conseguimos compreender. Senão vede… Ela [indica Glyzelle] fez hoje a única pergunta que não tem resposta. E não lhe vinham as palavras, teve de a dizer com as lágrimas. Assim, quando vier o próximo Papa a Manila, que haja mais mulheres!

Agradeço-te, Jun, que apresentaste com tanta coragem a tua experiência. Como disse antes, o núcleo da tua pergunta quase não tem resposta. Somente quando formos capazes de chorar sobre as coisas que vós vivestes, é que podemos compreender qualquer coisa e dar alguma resposta. A grande pergunta que se põe a todos: Porque sofrem as crianças? Porque sofrem as crianças? Precisamente quando o coração consegue pôr a si mesmo a pergunta e chorar, então podemos compreender qualquer coisa. Há uma compaixão mundana que para nada serve! Uma compaixão que, no máximo, nos leva a meter a mão na carteira e dar uma moeda. Se esta tivesse sido a compaixão de Cristo, teria passado, teria curado três ou quatro pessoas e teria regressado ao Pai. Somente quando Cristo chorou e foi capaz de chorar é que compreendeu os nossos dramas.

Queridos moços e moças, no mundo de hoje falta o pranto! Choram os marginalizados, choram aqueles que são postos de lado, choram os desprezados, mas aqueles de nós que levamos uma vida sem grandes necessidades não sabemos chorar. Certas realidades da vida só se vêem com os olhos limpos pelas lágrimas. Convido cada um de vós a perguntar-se: Aprendi eu a chorar? Quando vejo uma criança faminta, uma criança drogada pela estrada, uma criança sem casa, uma criança abandonada, uma criança abusada, uma criança usada como escravo pela sociedade? Oh! O meu não passa do pranto caprichoso de quem chora porque quereria ter mais alguma coisa? Esta é a primeira coisa que vos queria dizer: aprendamos a chorar, como ela [Glyzelle] nos ensinou hoje. Não esqueçamos este testemunho. A grande pergunta – porque sofrem as crianças? – foi feita por ela a chorar e a grande resposta que lhe podemos dar todos nós é aprender a chorar.

No Evangelho, Jesus chorou, chorou pelo amigo morto. Chorou no seu coração por aquela família que perdeu a filha. Chorou no seu coração, quando viu aquela pobre mãe viúva que levava o seu filho ao cemitério. Comoveu-Se e chorou no seu coração, quando viu a multidão como ovelhas sem pastor. Se vós não aprenderdes a chorar, não sois bons cristãos. E este é um desafio. Jun lançou-nos este desafio. E quando nos fizerem a pergunta «porque sofrem as crianças, porque acontece isto ou aquilo de trágico na vida», que a nossa resposta seja o silêncio ou a palavra que nasce das lágrimas? Sede corajosos, não tenhais medo de chorar.

A seguir veio Leandro Santos. Fez perguntas sobre o mundo da informação. Hoje, com tantosmass-media, estamos superinformados: será mal isto? Não. Isto é bom e ajuda, mas corremos o perigo de viver acumulando informações. E temos tantas informações, mas talvez não saibamos o que fazer com elas. Corremos o risco de nos tornarmos «jovens-museu» e não jovens sapientes. Poder-me-íeis pedir: Padre, como se chega a ser sapiente? E este é outro desafio: o desafio do amor. Qual é o assunto mais importante que é preciso aprender na universidade? Qual é o mais importante que se deve aprender na vida? Aprender a amar! E este é o desafio que o dia de hoje vos põe: aprender a amar! Não só acumular informações, sem saber o que fazer delas. É um museu. Mas, através do amor, fazer com que esta informação seja fecunda. Com este objectivo, o Evangelho propõe-nos um caminho sereno, tranquilo: usar as três linguagens, ou seja, a linguagem da mente, a linguagem do coração e a linguagem das mãos. E usar estas três linguagens de forma harmoniosa: aquilo que pensas, isso mesmo sentes e realizas. A tua informação desce ao coração, comove-o e realiza-se. E isto harmoniosamente: pensar o que se sente e o que se faz. Sentir aquilo que penso e faço; fazer o que penso e sinto. As três linguagens. Sois capazes de repetir, em voz alta, as três linguagens?

O verdadeiro amor é amar e deixar-me amar. É mais difícil deixar-me amar do que amar. Por isso é tão difícil chegar ao perfeito amor de Deus, porque podemos amá-Lo, mas o importante é deixar-se amar por Ele. O verdadeiro amor é abrir-se a este amor que nos precede e gera surpresa. Se tudo o que possuís é informação, toda a informação, estais fechados às surpresas; o amor abre-te às surpresas: o amor é sempre uma surpresa, porque pressupõe um diálogo a dois. Entre quem ama e quem é amado. E nós dizemos que Deus é o Deus das surpresas, porque Ele nos amou primeiro e espera-nos com uma surpresa. Deus surpreende-nos… Deixemo-nos surpreender por Deus! E não tenhamos a psicologia do computador: crer que sabe tudo. Isto que quer dizer? Um átimo e o computador dá-te todas as respostas, nenhuma surpresa. No desafio do amor, Deus manifesta-Se com surpresas. Pensemos em São Mateus… Era um bom homem de negócios; mas traía a sua pátria porque recolhia os impostos dos judeus para os dar aos romanos. Enfim, estava cheio de dinheiro e recebia os impostos. Passa Jesus, fixa-o e diz-lhe: «Segue-Me!» Aqueles que estavam com Jesus, dizem: Chama este que é um traidor, um vilão? Ele vive agarrado ao dinheiro… Mas a surpresa de ser amado vence-o e ele segue Jesus. Naquela manhã, quando se despedia da esposa, nunca teria pensado que iria voltar sem dinheiro e com pressa para dizer à sua esposa que preparasse um banquete. O banquete para Aquele que o tinha amado primeiro; que o havia surpreendido com algo mais importante do que todo o dinheiro que ele tinha.

Deixa-te surpreender pelo amor de Deus! Não tenhas medo das surpresas, que te agitam, põem em crise, mas de novo te colocam em caminho. O verdadeiro amor impele-te a gastar a vida, mesmo a risco de ficares com as mãos vazias. Pensemos em São Francisco: deixou tudo, morreu com as mãos vazias, mas com o coração cheio.

Estais de acordo? Não jovens de museu, mas jovens sapientes. Para ser sapientes, usai as três linguagens: pensar bem, sentir bem e fazer bem. E para ser sapientes, deixai-vos surpreender pelo amor de Deus! Ide e gastai a vida!

Obrigado pela tua contribuição de hoje!

Quem veio com um bom programa para nos ajudar a ver que podemos fazer na vida, foi Rikki. Contou todas as actividades, tudo aquilo que fazem, tudo o que querem fazer. Obrigado, Rikki! Obrigado pelo que fazeis, tu e os teus companheiros. Mas, quero fazer-te uma pergunta: Tu e os teus amigos estais comprometidos em dar – dais, dais, dais, ajudais… –, mas deixais também que vos dêem? Responde no teu coração. No Evangelho, que há pouco ouvimos, há uma frase que, para mim, é a mais importante de todas. O Evangelho diz que Jesus fitou o olhar naquele jovem e o amou (cf. Mc 10, 21). Quando alguém vê o grupo de Rikki e os seus companheiros, gosta muito deles porque fazem coisas muito boas, mas a frase mais importante que Jesus diz é: «Falta-te apenas uma coisa» (Mc 10, 21). Cada um de nós ouça em silêncio esta frase de Jesus: «Falta-te apenas uma coisa».

Que me falta? A todos aqueles que Jesus ama muito porque dão muito aos outros, eu pergunto: Deixais vós que os demais vos dêem outras riquezas que vós não tendes? Os saduceus, os doutores da Lei do tempo de Jesus davam muito ao povo, davam a Lei, ensinavam, mas nunca deixaram que o povo lhes desse qualquer coisa. Teve que vir Jesus para Se deixar comover pelo povo. Quantos jovens como vós, que estão aqui, sabem dar, mas não são igualmente capazes de receber!

«Falta-te apenas uma coisa». Isto é o que nos falta: aprender a mendigar daqueles a quem damos. Isto não é fácil de compreender: aprender a mendigar. Aprender a receber da humildade daqueles a quem ajudamos. Aprender a ser evangelizados pelos pobres. As pessoas que ajudamos – pobres, doentes, órfãos… – têm tanto para nos dar. Faço-me mendigo e peço também isto? Ou então sinto-me auto-suficiente e sei apenas dar? Vós que viveis dando sempre e julgais que de nada precisais, sabeis que sois verdadeiramente pobres? Sabeis que tendes uma grande pobreza e precisais de receber? Deixas-te ajudar pelos pobres, pelos doentes e por aqueles que ajudas? Isto é o que ajuda a amadurecer os jovens comprometidos como Rikki no trabalho de dar aos outros: aprender a estender a mão a partir da sua miséria.

Há alguns pontos que eu tinha preparado. O primeiro, que já disse, é aprender a amar e deixar-se amar. É o desafio da integridade moral.

Temos outro desafio, que é cuidar do meio ambiente. Isto não se deve apenas ao facto de que o vosso país, mais do que outros, corre o risco de ser seriamente afectado pelas alterações climáticas.

E, finalmente, há o desafio dos pobres. Amar os pobres. Os vossos Bispos querem que vos preocupeis com os pobres, sobretudo neste «Ano dos pobres». Vós pensais nos pobres? Sentis com os pobres? Fazeis algo pelos pobres? E pedis aos pobres para vos darem aquela sabedoria que eles possuem? Isto é o que eu vos queria dizer. Perdoai-me porque não li quase nada do que tinha preparado. Mas há uma expressão que me consola um pouco: «A realidade é superior à ideia». E a realidade que apresentastes, a realidade que sois é superior a todas as respostas que eu tinha preparado. Obrigado!

Discurso preparado pelo Santo Padre

Queridos jovens amigos!

É uma alegria para mim estar hoje convosco. Saúdo cordialmente a cada um de vós e agradeço a todos aqueles que tornaram possível este encontro. Durante a minha visita às Filipinas, senti uma vontade particular de me encontrar convosco, queridos jovens, para vos escutar e falar. Desejo exprimir o amor e a esperança que a Igreja tem por vós e em vós. A minha intenção é encorajar-vos, como cidadãos cristãos deste país, na oferta de vós mesmos feita com entusiasmo e honestidade para o grande compromisso de renovar a vossa sociedade e contribuir para a construção de um mundo melhor.

De modo especial, agradeço aos jovens que me dirigiram palavras de boas-vindas. Expressaram de forma eloquente, em vosso nome, as vossas preocupações e ansiedades, a vossa fé e as vossas esperanças. Falaram das dificuldades e expectativas dos jovens. Embora não possa responder a cada uma destas questões de forma exaustiva, sei que, juntamente com os vossos pastores e entre vós, ireis considerá-las cuidadosamente com a ajuda da oração e fareis propostas concretas de acção.

Hoje quero sugerir-vos três áreas-chave onde tendes uma contribuição significativa a dar à vida do vosso país. A primeira é o desafio da integridade. O termo «desafio» pode ser entendido de duas maneiras. A primeira, de modo negativo, como uma tentativa de agir contra as vossas convicções morais, contra tudo o que vós professais acerca do que é verdadeiro, bom e justo. A nossa integridade pode ser desafiada por interesses egoístas, pela ganância, pela desonestidade ou pela intenção de manipular os outros.

Mas a palavra «desafio» pode-se entender também em sentido positivo. Pode ser vista como um convite a ser corajoso, a dar um testemunho profético da própria fé e de tudo o que se crê e considera sagrado. Neste sentido, o desafio da integridade é algo com que é preciso confrontar-vos nestes tempos e nas vossas vidas. Não se trata de algo que se pode adiar para quando fordes mais idosos ou tiverdes maiores responsabilidades. Mesmo agora, sois desafiados a agir com honestidade e lealdade nas vossas relações com os outros, sejam eles jovens ou idosos. Não fujais deste desafio. Um dos maiores desafios que os jovens têm pela frente é o de aprender a amar. Amar significa assumir um risco: o risco da rejeição, o risco de ser usados ou, pior, usar o outro. Não tenhais medo de amar. Mas, mesmo amando, preservai a vossa integridade. Também nisso, sede honestos e leais.

Na leitura que acabámos de ouvir, Paulo diz a Timóteo: «Ninguém escarneça da tua juventude; antes, sê modelo dos fiéis na palavra, na conduta, no amor, na fé, na castidade» (1 Tm 4, 12).

Portanto sois chamados a dar bom exemplo, exemplo de integridade. Ao fazê-lo, naturalmente tereis de enfrentar oposições e críticas, o desânimo e até o ridículo. Mas vós recebestes um dom que vos permite superar estas dificuldades: o dom do Espírito Santo. Se alimentardes este dom com a oração diária e tirardes força da participação na Eucaristia, sereis capazes de alcançar aquela grandeza moral a que vos chama Jesus. Tornar-vos-eis também uma bússola para os vossos amigos que andam à deriva. Penso especialmente nos jovens que se sentem tentados a perder a esperança, a abandonar os seus altos ideais, a deixar a escola ou a gozar o dia-a-dia.

Por isso, é essencial não perder a vossa integridade, não comprometer os vossos ideais, nem ceder às tentações contra a bondade, a santidade, a coragem e a pureza. Abraçai o desafio. Com Cristo, vós sereis – na verdade, já o sois – os artífices duma cultura filipina renovada e mais justa.

Uma segunda área onde sois chamados a dar a vossa contribuição é mostrar solicitude pelo meio ambiente. Isto não se deve apenas ao facto de que o vosso país, mais do que outros, corre o risco de ser seriamente afectado pelas alterações climáticas. Sois chamados a cuidar da criação, não só como cidadãos responsáveis, mas também como seguidores de Cristo. O respeito pelo ambiente requer mais do que simplesmente usar produtos não poluentes ou reciclá-los. Estes são aspectos importantes, mas não suficientes. Temos necessidade de ver, com os olhos da fé, a beleza do plano de salvação de Deus, a ligação entre o ambiente natural e a dignidade da pessoa humana. O homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus, tendo-lhes sido dado o domínio sobre a criação (cf. Gn 1, 26-28). Como administradores da criação, somos chamados a fazer da Terra um belíssimo jardim para a família humana. Quando destruímos as nossas florestas, devastamos o solo e poluímos os mares, traímos esta nobre vocação.

Há três meses, os vossos bispos abordaram estes temas numa Carta Pastoral profética. Pediram a cada um que reflectisse sobre a dimensão moral das nossas actividades e dos nossos estilos de vida, nos nossos consumos e no uso que fazemos dos recursos naturais. Hoje peço-vos que o façais no contexto das vossas vidas e do vosso compromisso em prol da construção do Reino de Cristo. Queridos jovens, o uso e a gestão correctos dos recursos naturais é uma tarefa urgente, para a qual tendes uma importante contribuição a dar. Sois o futuro das Filipinas. Mostrai-vos interessados por tudo o que sucede na vossa belíssima terra.

Outra área, para a qual podeis prestar uma contribuição, é particularmente querida a todos vós: ocuidado dos pobres. Somos cristãos, membros da família de Deus. Cada um de nós – não importa se, individualmente, temos muito ou pouco – é chamado a estender a mão pessoalmente e servir os nossos irmãos e irmãs necessitados. Há sempre alguém perto de nós que está em necessidade: material, psicológica, espiritual. O maior presente que lhe podemos dar é a nossa amizade, a nossa solicitude, a nossa ternura, o nosso amor por Jesus. Recebê-Lo significa receber com Ele tudo; dá-Lo significa dar o maior presente de todos.

Muitos de vós sabem o que significa ser pobre. Mas, muitos de vós terão experimentado também algo da bem-aventurança que Jesus prometeu aos «pobres em espírito» (Mt 5, 3). Gostaria de deixar aqui uma palavra de incentivo e gratidão àqueles de vós que escolheram seguir Nosso Senhor na sua pobreza, através da vocação ao sacerdócio e à vida religiosa; bebendo naquela pobreza, enriquecereis a muitos. A todos vós, porém, especialmente àqueles que podem fazer e dar mais, peço: Por favor, fazei mais! Por favor, dai mais! Quando ofereceis algo do vosso tempo, dos vossos talentos e dos vossos recursos a tantas pessoas carentes que vivem marginalizadas, sois diferentes. É uma diferença de que há uma necessidade desesperada e pela qual sereis abundantemente recompensados pelo Senhor, pois – como Ele disse – «tereis um tesouro no céu» (Mc 10, 21).

Vinte anos atrás, São João Paulo II afirmou, neste mesmo lugar, que o mundo precisa de «um novo tipo de jovem»: um jovem que esteja comprometido com os mais altos ideais e desejoso de construir a civilização do amor. Sede aqueles jovens de que falava São João Paulo II. Não percais os vossos ideais. Sede jubilosas testemunhas do amor de Deus e do plano maravilhoso que Ele tem para nós, para este país e para o mundo em que vivemos. Por favor, rezai por mim. Deus vos abençoe a todos.

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA FRANCISCO
PARA O XLIX DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

Comunicar a família: 

ambiente privilegiado do encontro na gratuidade do amor

[17 de Maio de 2015]

O tema da família encontra-se no centro duma profunda reflexão eclesial e dum processo sinodal que prevê dois Sínodos, um extraordinário – acabado de celebrar – e outro ordinário, convocado para o próximo mês de Outubro. Neste contexto, considerei  oportuno que o tema do próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais tivesse como ponto de referência a família. Aliás, a família é o primeiro lugar onde aprendemos a comunicar. Voltar a este momento originário pode-nos ajudar quer a tornar mais autêntica e humana a comunicação, quer a ver a família dum novo ponto de vista.

Podemos deixar-nos inspirar pelo ícone evangélico da visita de Maria a Isabel (Lc 1, 39-56). «Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Então, erguendo a voz, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”» (vv. 41-42).

Este episódio mostra-nos, antes de mais nada, a comunicação como um diálogo que tece com a linguagem do corpo. Com efeito, a primeira resposta à saudação de Maria é dada pelo menino, que salta de alegria no ventre de Isabel. Exultar pela alegria do encontro é, em certo sentido, o arquétipo e o símbolo de qualquer outra comunicação, que aprendemos ainda antes de chegar ao mundo. O ventre que nos abriga é a primeira «escola» de comunicação, feita de escuta e contacto corporal, onde começamos a familiarizar-nos com o mundo exterior num ambiente protegido e ao som tranquilizador do pulsar do coração da mãe. Este encontro entre dois seres simultaneamente tão íntimos e ainda tão alheios um ao outro, um encontro cheio de promessas, é a nossa primeira experiência de comunicação. E é uma experiência que nos irmana a todos, pois cada um de nós nasceu de uma mãe.

Mesmo depois de termos chegado ao mundo, em certo sentido permanecemos num «ventre», que é a família. Um ventre feito de pessoas diferentes, interrelacionando-se: a família é «o espaço onde se aprende a conviver na diferença» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 66). Diferenças de géneros e de gerações, que comunicam, antes de mais nada, acolhendo-se mutuamente, porque existe um vínculo entre elas. E quanto mais amplo for o leque destas relações, tanto mais diversas são as idades e mais rico é o nosso ambiente de vida. O vínculo está na base da palavra, e esta, por sua vez, revigora o vínculo. Nós não inventamos as palavras: podemos usá-las, porque as recebemos. É em família que se aprende a falar na «língua materna», ou seja, a língua dos nossos antepassados (cf. 2 Mac 7, 21.27). Em família, apercebemo-nos de que outros nos precederam, nos colocaram em condições de poder existir e, por nossa vez, gerar vida e fazer algo de bom e belo. Podemos dar, porque recebemos; e este circuito virtuoso está no coração da capacidade da família de ser comunicada e de comunicar; e, mais em geral, é o paradigma de toda a comunicação.

A experiência do vínculo que nos «precede» faz com que a família seja também o contexto onde se transmite aquela forma fundamental de comunicação que é a oração. Muitas vezes, ao adormecerem os filhos recém-nascidos, a mãe e o pai entregam-nos a Deus, para que vele por eles; e, quando se tornam um pouco maiores, põem-se a recitar juntamente com eles orações simples, recordando carinhosamente outras pessoas: os avós, outros parentes, os doentes e atribulados, todos aqueles que mais precisam da ajuda de Deus. Assim a maioria de nós aprendeu, em família, a dimensão religiosa da comunicação, que, no cristianismo, é toda impregnada de amor, o amor de Deus que se dá a nós e que nós oferecemos aos outros.

Na família, é sobretudo a capacidade de se abraçar, apoiar, acompanhar, decifrar olhares e silêncios, rir e chorar juntos, entre pessoas que não se escolheram e todavia são tão importantes uma para a outra… é sobretudo esta capacidade que nos faz compreender o que é verdadeiramente a comunicação enquanto descoberta e construção de proximidade. Reduzir as distâncias, saindo mutuamente ao encontro e acolhendo-se, é motivo de gratidão e alegria: da saudação de Maria e do saltar de alegria do menino deriva a bênção de Isabel, seguindo-se-lhe o belíssimo cântico do Magnificat, no qual Maria louva o amoroso desígnio que Deus tem sobre Ela e o seu povo. De um «sim» pronunciado com fé, derivam consequências que se estendem muito para além de nós mesmos e se expandem no mundo. «Visitar» supõe abrir as portas, não encerrar-se no próprio apartamento, sair, ir ter com o outro. A própria família é viva, se respira abrindo-se para além de si mesma; e as famílias que assim procedem, podem comunicar a sua mensagem de vida e comunhão, podem dar conforto e esperança às famílias mais feridas, e fazer crescer a própria Igreja, que é uma família de famílias.

Mais do que em qualquer outro lugar, é na família que, vivendo juntos no dia-a-dia, se experimentam as limitações próprias e alheias, os pequenos e grandes problemas da coexistência e do pôr-se de acordo. Não existe a família perfeita, mas não é preciso ter medo da imperfeição, da fragilidade, nem mesmo dos conflitos; preciso é aprender a enfrentá-los de forma construtiva. Por isso, a família onde as pessoas, apesar das próprias limitações e pecados, se amam, torna-se uma escola de perdão. O perdão é uma dinâmica de comunicação: uma comunicação que definha e se quebra, mas, por meio do arrependimento expresso e acolhido, é possível reatá-la e fazê-la crescer. Uma criança que aprende, em família, a ouvir os outros, a falar de modo respeitoso, expressando o seu ponto de vista sem negar o dos outros, será um construtor de diálogo e reconciliação na sociedade.

Muito têm para nos ensinar, a propósito de limitações e comunicação, as famílias com filhos marcados por uma ou mais deficiências. A deficiência motora, sensorial ou intelectual sempre constitui uma tentação a fechar-se; mas pode tornar-se, graças ao amor dos pais, dos irmãos e doutras pessoas amigas, um estímulo para se abrir, compartilhar, comunicar de modo inclusivo; e pode ajudar a escola, a paróquia, as associações a tornarem-se mais acolhedoras para com todos, a não excluírem ninguém.

Além disso, num mundo onde frequentemente se amaldiçoa, insulta, semeia discórdia, polui com as murmurações o nosso ambiente humano, a família pode ser uma escola de comunicação feita de bênção. E isto, mesmo nos lugares onde parecem prevalecer como inevitáveis o ódio e a violência, quando as famílias estão separadas entre si por muros de pedras ou pelos muros mais impenetráveis do preconceito e do ressentimento, quando parece haver boas razões para dizer «agora basta»; na realidade, abençoar em vez de amaldiçoar, visitar em vez de repelir, acolher em vez de combater é a única forma de quebrar a espiral do mal, para testemunhar que o bem é sempre possível, para educar os filhos na fraternidade.

Os meios mais modernos de hoje, irrenunciáveis sobretudo para os mais jovens, tanto podem dificultar como ajudar a comunicação em família e entre as famílias. Podem-na dificultar, se se tornam uma forma de se subtrair à escuta, de se isolar apesar da presença física, de saturar todo o momento de silêncio e de espera, ignorando que «o silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras ricas de conteúdo» (Bento XVI, Mensagem do XLVI Dia Mundial das Comunicações Sociais, 24/1/2012); e podem-na favorecer, se ajudam a narrar e compartilhar, a permanecer em contacto com os de longe, a agradecer e pedir perdão, a tornar possível sem cessar o encontro. Descobrindo diariamente este centro vital que é o encontro, este «início vivo», saberemos orientar o nosso relacionamento com as tecnologias, em vez de nos deixarmos arrastar por elas. Também neste campo, os primeiros educadores são os pais. Mas não devem ser deixados sozinhos; a comunidade cristã é chamada a colocar-se ao seu lado, para que saibam ensinar os filhos a viver, no ambiente da comunicação, segundo os critérios da dignidade da pessoa humana e do bem comum.

Assim o desafio que hoje se nos apresenta, é aprender de novo a narrar, não nos limitando a produzir e consumir informação, embora esta seja a direcção para a qual nos impelem os potentes e preciosos meios da comunicação contemporânea. A informação é importante, mas não é suficiente, porque muitas vezes simplifica, contrapõe as diferenças e as visões diversas, solicitando a tomar partido por uma ou pela outra, em vez de fornecer um olhar de conjunto.

No fim de contas, a própria família não é um objecto acerca do qual se comunicam opiniões nem um terreno onde se combatem batalhas ideológicas, mas um ambiente onde se aprende a comunicar na proximidade e um sujeito que comunica, uma «comunidade comunicadora». Uma comunidade que sabe acompanhar, festejar e frutificar. Neste sentido, é possível recuperar um olhar capaz de reconhecer que a família continua a ser um grande recurso, e não apenas um problema ou uma instituição em crise. Às vezes os meios de comunicação social tendem a apresentar a família como se fosse um modelo abstracto que se há-de aceitar ou rejeitar, defender ou atacar, em vez duma realidade concreta que se há-de viver; ou como se fosse uma ideologia de alguém contra outro, em vez de ser o lugar onde todos aprendemos o que significa comunicar no amor recebido e dado. Ao contrário, narrar significa compreender que as nossas vidas estão entrelaçadas numa trama unitária, que as vozes são múltiplas e cada uma é insubstituível.

A família mais bela, protagonista e não problema, é aquela que, partindo do testemunho, sabecomunicar a beleza e a riqueza do relacionamento entre o homem e a mulher, entre pais e filhos. Não lutemos para defender o passado, mas trabalhemos com paciência e confiança, em todos os ambientes onde diariamente nos encontramos, para construir o futuro.

Vaticano, 23 de Janeiro – Vigília da Festa de São Francisco de Sales – de 2015.

Francisco PP.