IRMÃO GUIDO LUMINI
uma alma maravilhosa
entre os seus Irmãos


"Irmão, falas por tua vida, rezas pelo que és.
Que tua ação e tuas palavras convirjam no teu encontro cotidiano
para Aquele que te escolheu e amou.
No teu encontro vivo de cada dia, deixa-te transformar pelo Cristo,
alimento e bebida de tua existência.
Não interponhas obstáculos (Prólogo)".


   Caracterizar a vida terrena ou a existência humana de uma pessoa, nem sempre resulta numa tarefa fácil porquanto podemos olvidar aspectos essenciais ou então incorrer em outros que até nem mesmo a própria pessoa gostaria que fossem evocados. Contudo atrevemo-nos a colocar em evidência alguns traços da rica personalidade do Ir. Guido Lumini que no dia 03 de maio de 2007 retornou à casa do Pai. Podemos afirmar sem medo de errar que ele foi entre os seus Irmãos uma alma maravilhosa ornado por qualidades humanas, cristãs e religiosas extraordinárias sem deixar de ressaltar a magnificência de seus dons, com os quais enriqueceu substancialmente a quem teve a ventura de conviver com ele. Admiramo-lo, pois pela sua vivência, pelo seu testemunho de vida, a amizade, a palavra amiga, o incentivo, a disponibilidade para com todos, pela serenidade com que enfrentou os diversos embates da vida, inclusive a sua breve doença rápida e fulminante, e particularmente a seriedade e a convicção com que sempre assumiu os compromissos inerentes a sua consagração religiosa. Neste sentido podemos dizer em poucas palavras: Ele viveu com intensidade a sua vocação religiosa, sendo entre nós "simplesmente Irmão". Amou de verdade o Instituto dos Irmãos da Sagrada Família, particularmente a nossa Vice-Província "Nossa Senhora Aparecida", pela qual dedicou e entregou generosamente a sua vida.

   Desde muito cedo, sentiu o chamado de Deus à vida religiosa. Com certeza sabia e tinha muito claro o que queria - palavras expressas por ele mesmo em diversas circunstâncias e ocasiões - ao longo de sua vida. Com onze anos de idade ingressou no juvenato dos Irmãos da Sagrada Família na longínqua Itália, mais precisamente em Vila Brea-Chieri-Itália. Alguns anos de aspirantado, depois o postulantado, em seguida o Noviciado na casa mãe de Belley na França e finalmente a 1ª profissão religiosa, recém cumpridos os dezessete anos, no dia 31 de julho de 1958. Como tantos outros Irmãos de sua época, quis a Providência que poucos meses depois, o seu destino fosse a América, onde continuaria a sua formação religiosa e profissional como escolástico, exercendo nos diversos Colégios dos Irmãos dos países do Prata, a docência primária. A profissão perpétua aconteceu no dia 08 de dezembro de 1963 em Progresso no Uruguai.

   Dotado de espírito missionário, transcorridos poucos dias depois deste compromisso definitivo para com a Congregação, foi chamado da parte de seus superiores para realizar uma tarefa ingente, mas significativa qual seja o de integrar o grupo de Irmãos fundadores da obra dos Irmãos da Sagrada Família no Brasil. Assim em 13 de dezembro de 1963, chegaria a Marau – RS juntamente com os Irmãos Manuel Arroyo e Julio Folladosa, constituindo a primeira comunidade religiosa do Instituto em terras brasileiras. Depois sempre na linha de frente e na vanguarda, caracterizado especialmente pela serenidade e prudência, marcou presença em diversas comunidades: Vila Maria, Itapiranga, Passo Fundo, Ibema e no corrente ano por poucos meses na comunidade de Brasília. Certamente já pressentindo o que lhe estava reservado aceitou esta última incumbência, não isenta de renúncia, oferecendo-se generosamente a esta altura de sua vida. Mas impregnado como por um ato de fé e uma obediência incondicional, pronta e total, continuou sendo fiel, até o último momento, não "interpondo nenhum obstáculo" ao projeto e à vontade do Senhor.

   Além da docência exercida, durante a sua vida, sobretudo nos primeiros anos, certamente amou profundamente a vocação de professor, notabilizou-se nas atividades do governo da Vice-Província como conselheiro do qual foi integrante por muitos anos, sendo o seu superior maior por doze anos consecutivos. Durante um sexênio de 1989 a 1995 foi membro do Conselho Geral do Instituto. Foi formador de aspirantado, postulantado, mas especialmente na etapa do Noviciado, durante diversos períodos intercalados e vinha ocupando, todavia, o cargo de responsável dos jovens Irmãos escolásticos até o momento de sua morte.

   O seu período de convalescença foi relativamente curto. O câncer minou rapidamente o seu ser, roubando-lhe as energias e forças. Golpeou-lhe a vida impiedosamente de forma galopante e agressiva. Aceitou a cruz da enfermidade com uma força extraordinária, sem jamais se queixar ou reclamar. E por mais que não lhe dissessem que o seu fim estava iminente, ele tinha plena consciência da sua situação e quando lhe desejávamos boas melhoras, percebia-se um sorriso sereno, quase matreiro estampado em seu semblante, como a nos dizer: "Ah estão querendo me enganar. Estou pronto, deixem-me partir tranquilamente".

   Com grande confiança no Senhor, viveu os seus últimos dias, no Centro Taborin de Passo Fundo, este era na verdade o seu recanto preferido, vindo a entregar a sua alma a Deus, exatamente no espaço onde ele adorava estar e onde por muitos anos labutou nos trabalhos da Congregação, especialmente quando era Vice-Provincial. Entre a realização de variados exames e idas e vindas ao Hospital São Vicente seguia acompanhando os exercícios comunitários com uma pontualidade e regularidade espetaculares. Fazia questão de estar na companhia dos seus Irmãos, por mais que sentisse a doença carcomendo-lhe as entranhas, mesmo quando nos últimos dias vinha sendo difícil até manter-se sentado numa cadeira. Mas ali estava ele presente, porque é agradável e bom estar na companhia dos co-irmãos. Mantinha-se por demorados momentos, recolhido em profunda oração diante do Santíssimo, particularmente na véspera de sua morte. Ocasião em que num esforço sobre humano, acompanhado por um Irmão da comunidade, realizou a última paraliturgia. "Se nem sempre é possível participar diariamente da Santa Missa, não se pode, no entanto ficar sem Eucaristia", dizia amiúdemente. Era um amante da Eucaristia por excelência.

   Agora que ele já goza da visão beatífica do Pai, juntamente com tantos Irmãos que já nos precederam, não deixando de recordar aqui, também o nosso estimado Ir. Juvenal, não nos é permitido vivenciar a tristeza, lamentar a sua ausência, nem mais chorar a sua partida. Mas sim proclamar a alegria da ressurreição e do encontro definitivo com Deus. Necessitamos afirmar a nossa dimensão de fé, pois nesta perspectiva "a vida não nos é tirada, mas transformada". E parafraseando o que disse sabiamente o Bispo emérito Dom Urbano na missa de exéquias: "Estamos do ponto de vista humano diante de uma morte prematura, mas certamente o nosso estimado Irmão estava maduro para o céu". E como estava!

   E a partir das nossas Regras proclamar: Toda a vida do religioso é uma preparação ao batismo da morte que o introduz definitivamente à ressurreição. O nosso irmão chegou à hora suprema do sim da Cruz, último passo da conversão total de si mesmo ao Senhor que é vida e ressurreição. Para o religioso, trata-se da hora da excelência. O Ir. Guido chegou ao termo de uma preparação elaborada durante toda a sua vida. Esta etapa é, pois a da plenitude e da consumação.

   E a nós que ficamos afirmamos esperançosos: Obrigado pelo que você representou e significou em nossas vidas, nesta parcela do Instituto que você amou deverasmente e que não deixou de ser a razão do seu existir. E rezamos pelo seu eterno descanso. Enquanto continuamos a nossa peregrinação terrena, vivendo o nosso ser Irmãos, até o dia em que jubilosos haveremos de nos reencontrar na glória eterna.
 

"A ressurreição do Cristo suscita a esperança dos Irmãos

e a certeza da perenidade da comunidade além da morte (Const.139)".